“Comigo a filantropia nasceu no seio da pobreza”

 

Como tantas outras crianças do seu tempo, teve uma infância de dificuldades, por isso considera, como tanto se diz, que é um adulto que nunca foi criança. Com a família emigrou para o Canadá apenas com 14 anos, para trabalhar, como é evidente. “Subiu a corda a pulso” e, contrariando a lógica de que quem nasce em ambiente de dificuldades dificilmente as contornará, apresenta-se hoje como um empresário bem-sucedido. No entanto, não quer usufruir individualmente deste sucesso, antes dividi-lo um pouco com as sociedades em que se insere.

Não esquece Portugal, Viana e Castelo do Neiva, a sua terra natal, nem tão pouco o país que lhe proporcionou oportunidades para ser um cidadão realizado. À margem das suas atividades procura estar onde mais necessitam dele. Convive bem com a filantropia e, neste campo, não deixa de sonhar com projetos de relevo, como nos diz nesta curta entrevista que nos deu via correio eletrónico.  

Quer estender os seus negócios à terra onde não conseguiu ser criança e onde gostaria de ver todas as crianças e todos os seus conterrâneos suficientemente felizes. Assume-se com a naturalidade própria de quem foi fazendo o caminho que o levou à condição de cidadão que pode e quer ajudar a criar novos caminhos a quem tem dificuldades em encontrá-los.

Deixa respostas por vezes surpreendentes, fruto de uma vivência intensa no mundo que o acarinhou. Contribuiu, por isso, para uma entrevista com conteúdo.

Manuel Dacosta, comecemos pelo princípio. Que imagem tens da tua infância no Castelo do Neiva? 

Só posso ver a minha infância como a de alguém que apenas viveu a fase adulta. Aquele era o tempo em que as brincadeiras de criança não passavam de um luxo, só possível a um grupo limitado. Para quem era pobre, e naquela época essa era a condição de quase todos, só havia tempo para trabalhar. Não é por acaso que ainda hoje se diz que “o trabalho do menino é pouco, mas quem o despreza é louco”. No meu tempo de infância era assim. Eu comecei a tratar da casa e da família aos seis anos de idade. Os meus pais tinham tarefas mais importantes para se ocuparem.

Enquanto não emigraste o que foi a tua atividade? 

Vim para o Canadá com 14 anos de idade, e desde os 11 trabalhei na construção civil. Trabalho árduo e explorado por aqueles que usavam as crianças como adultos, porém o sistema era mesmo assim. Também trabalhei nos campos e outras atividades para ajudar no sustento da família.

Emigraste diretamente para o Canadá ou, tal como muitos castelenses,  passaste por outras locais? 

Vim diretamente para o Canadá. O meu pai, vindo da França, para onde tinha anteriormente emigrado, chegou mais cedo três anos. Depois de estabelecido, chamou o resto da família, e aí nos acomodámos todos.

Como foi o teu percurso de vida no Canadá? 

No mínimo, interessante, porém, muito “suado”. Sempre exijo muito de mim, daí uma intensa vida de trabalho, a par da preocupação com causas que entendo devo defender, nunca esquecendo a promoção da cultura portuguesa, apesar de reconhecer que Portugal fez muito pouco para que eu e tantos outros tivéssemos emigrado. Naturalmente, também não deixo de manifestar a minha gratidão ao país que soube acolher-me e permitiu a minha realização. Não foi fácil a integração no Canadá, já que não estava intelectualmente preparado para as exigências duma nação evoluída como esta é. Todavia, com o decorrer do tempo, apercebi-me bem das possibilidades que me foram facultadas, em plano de igualdade com todos os cidadãos (pobres e ricos) que aqui moram, independentemente de serem naturais ou emigrantes. 

Atitude filantrópica

Como abraçaste a causa da filantropia, quer no Canadá, quer mesmo em Portugal? 

A filantropia é um sentimento muito pessoal. Penso que nasce connosco. Comigo nasceu no seio da pobreza, particularmente na praia do Castelo do Neiva. Pobreza e fome vão de mãos dadas. Nesse tempo, formavam-se comunidades onde todos se ajudavam para sobreviver. Também senti e vivi dessa solidariedade. Daí veio o sentimento de que se todos fizermos algo pelo nosso semelhante, poder-se-á construir um mundo melhor. A filantropia não se faz só com dinheiro. Há outras formas de ajudar. Uma palavra amiga, um incentivo para que não se desista, porque vencer é sempre possível, e apontar caminhos convenientes, pode ser profundamente motivador para quem vive em aflição. Quando existimos para apenas olhar para o nosso umbigo somos intelectualmente mais pobres e incapazes de compreender o funcionamento do mundo.

Sabemos, por exemplo, que não te tens esquecido do movimento associativo no Castelo do Neiva, e que a abertura da sede do seu Grupo Recreativo (GRECAN) também contou com a tua ajuda. Sentes que não deves esquecer as tuas origens? 

As nossas origens devem estar permanentemente connosco. Apesar disso, confesso que estive longo tempo distanciado da minha terra, quer pelo meu empenho em fazer um percurso bem-sucedido na nação que me acolheu, quer, julgo, pela infância de dificuldades que vivi. Porém, gradualmente, comecei a compreender que não poderia atribuir culpas à terra onde nasci, já que as nações não podem ser culpadas pela gestão dos maus governantes que lhes calham. Quando criamos o Grupo de Amigos do Castelo, o nosso objetivo era o de contribuir para projetos que elevassem a personalidade da freguesia, sem esquecer os mais necessitados. O primeiro projeto que aconteceu foi a edificação do monumento dedicado às Gentes do Mar, baseado no conceito de que os pescadores da minha terra, sempre tão ignorados, se destacaram heroicamente na atividade marítima. Depois, surgiu a capela mortuária, que tanta falta fazia e há muito tempo desejada. Foi para mim um orgulho assistir à sua conclusão. Outros projetos se seguirão, mas, por vezes, interrogo-me se a freguesia aplaude o que fazemos. Julgo que há falta de bairrismo nos castelenses, já que não vejo gente bem-sucedida da freguesia a contribuir para o seu progresso e alindamento. Ainda hoje sou eu que assumo os custos da manutenção do espaço onde o monumento ao pescador está instalado. Vejo com alguma tristeza que o orgulho e o prazer de servir não sejam mais evidentes em Castelo do Neiva. Sobre o GRECAN, trata-se de uma instituição prestes a concluir meio século de vida que merece ser ajudada, gostava, contudo, de a ver mais sentida no reconhecimento daqueles que lhe prestam ajuda, valorizando o empenho dos emigrantes na promoção da cultura no Castelo do Neiva.

Recentemente, tal como foi referido no “A Aurora do Lima”, em nota de Daniel Bastos, foste alvo de uma sentida homenagem, tal como em outras ocasiões tem acontecido. Uma homenagem acontece para premiar méritos. Nestes momentos sentes a satisfação do dever cumprido? 

A minha maior satisfação é dar o meu modesto contributo na melhoria do nível da vida das pessoas e ajudar a construir sociedades mais cultas e evoluídas. Esse sim é o melhor reconhecimento que posso ter.

Tens outros projetos no campo de bem-fazer. Tal como o colunista do “A Aurora do Lima”, Daniel Bastos, dá a conhecer, tens em vista a criação da Magellen Community Charities, uma organização sem fins lucrativos, com inauguração prevista para 2025; um centro orçado em vários milhões de dólares, capaz de acolher mais de duas centenas de idosos, especialmente direcionado para a comunidade portuguesa. Queres dar mais pormenores deste ambicioso projeto? 

Este projeto foi sonhado há 16 anos. Finalmente conseguimos licenças pra contruir uma residência/hospital com 306 camas para pessoas idosas que precisam de particular atenção, cuja temática tem a ver com a cultura portuguesa. 

O projeto vai custar 100 milhões de dólares. Estamos em campanha para angariar fundos e sentimo-nos muito otimistas com os resultados conseguidos. Este projeto constituirá um marco importante na definição da vida da nossa comunidade.

Atividades lúdicas

Como se organiza socialmente, a vasta comunidade castelense no Canadá?  Tem associações para conviver ou o trabalho não deixa espaço para muito? 

Como tantas outras comunidades, também os castelenses mantêm o seu espírito bairrista. Contudo, estes dedicam-se muito ao trabalho e bem menos à vertente social. Temos que reconhecer que o labor, quase sempre exigente e duro, deixa pouco espaço para atividades lúdicas. Porém, algum tempo sempre será possível encontrar para o convívio, que faz bem à mente, valoriza-nos e dá-nos grandeza. Mas esta característica é muito comum ao meio milhão de portugueses que vive no Canadá, uma nação que nos proporcionou uma admirável integração, sempre com a preocupação do seu aprofundamento. 

Hoje sentes-te mais canadiano do que português? 

Digamos que sou canadiano com sangue português. Não sou um homem contrariado por estar fora de Portugal. 

Sou fiel a quem me proporcionou todas as oportunidades para cuidar da minha evolução com respeito e igualdade, porém, irei sempre promover a cultura portuguesa, que tem no mundo uma representatividade de grande significado. 

Que outros projetos tens para o futuro? 

Projetos não faltam. Em 2023, vamos celebrar os 70 anos da chegada do primeiro emigrante português ao Canadá. Estou a coordenar uma comissão que está a organizar eventos para honrar aqueles que nos abriram as portas para aqui ingressarmos. 

Outro projeto que tenho em mente é passar mais tempo em atividades empresariais em Portugal, para estar mais perto de minha mãe, a Leontina, bem conhecida no meio castelense, que sempre foi fonte de inspiração para mim.  

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