Chora-se a morte de um amigo como se chora a de um familiar muito próximo, porque se trata de alguém com quem se estabelece cumplicidades, se cria compreensões mútuas e se partilha sucessos e insucessos da vida. Um amigo de verdade pode considerar-se um irmão, que nunca nos recusa solidariedade nos momentos acidentados da vida.
“Menandro”, poeta cómico ateniense (342/292 a. C.), afirmava que “mais vale um bom amigo do que um tesouro que se deixa encher de bolor num qualquer buraco”. Contudo, é usual dizer-se que a amizade tem vindo a perder valor. Tal conceção parece pouco fundada. A amizade assenta em princípios e valores, caso contrário não existe e não vai além da cordialidade, apenas isso. A amizade autêntica jamais será efémera, e pensar o contrário é não acreditar no ser humano e na sua generosidade. É não crer na possibilidade de as sociedades evoluírem e se transformarem em espaços de progresso, bom relacionamento e vincada fraternidade.
António Costa deixou-nos no passado dia 03, mas legou-nos padrões de comportamentos e formas de estar que permitem aturada reflexão sobre a nossa vida em comunidade.
Verdadeiramente, conheci-o em 1974, apesar de antes nos saudarmos quando nos cruzávamos. A partir dessa data, todo o tempo foi tempo para estabelecermos uma amizade de grande solidez. Pontualmente, divergimos na apreciação das dinâmicas políticas em que, por razões bem alicerçadas ideologicamente, nos envolvíamos. Porém, sempre entendemos que uma amizade consistente estava acima de todas as formas de pensar, especialmente em relação aos caminhos a trilhar para trazer novos valores à sociedade em que nos inserimos. Daí que fossem muitos os projetos que congeminámos e realizámos, por vezes rodeados de peripécias onde prevalecia o difícil ou até o cómico. Em junho de 1976, por exemplo, colocar o retrato de Octávio Pato, candidato à presidência da República, pintado por Salvador Vieira, grande retratista que foi, a cobrir praticamente toda a frontaria da estação da CP, habitada, foi algo que ainda hoje se pode questionar como aconteceu. Ou, ainda no mesmo ano, com cariz diferente, como foi suportável passar 10 horas, a noite inteira, a pintar, com apenas três pessoas, um mural a ocupar toda a fachada principal da Cedemi, antigo edifício da fábrica das boinas, situado na Rua José Espregueira.
Bom, mas é do Amigo que partiu que se deve deixar referências, que nunca passarão de aligeiradas alusões sobre um cidadão pleno, de elevada estatura moral e de grande firmeza de princípios. As vivências, tantas elas são, ficam como memória. O Tone Costa, assim o tratávamos, valorizava pouco a sua condição de Engenheiro Eletrotécnico, ou as funções que desempenhou na sua vida profissional, quer na Portugal Telecom, primeiro, quer na docência, ultimamente. Por vezes dava a ideia de que ocultava muito do que sabia para respeitar o conhecimento de terceiros. Procurava que ninguém se sentisse diminuído na sua presença, ouvindo todos com atenção, nunca interferindo, sempre curioso e com vontade de aprender mais, porque em todos encontrava sabedoria para enriquecer os seus próprios conhecimentos. Sabia gerir o seu tempo na base de um planeamento perfeito, com agendas bem elaboradas, para dar cumprimento aos seus afazeres, e para responder a atividades extras. E, na base dessa metodologia, teve períodos de grande intensidade, muito especialmente no plano político, onde deu muito de si, quer antes, quer depois da revolução de Abril. Nos primeiros anos pós 25 de Abril, como militante ativo do PCP, fez o pleno no cumprimento de tarefas e na dedicação às atividades que se pretendiam transformadoras, rumo a uma sociedade bem diferente daquela que para trás ficava.
Depois, foi intervindo em ações múltiplas, sempre com a preocupação de que o velho desse lugar ao novo, visando continuadamente um Portugal melhor. Em coletivo, presentemente, empenhava-se na preservação da história e do património da Escola Secundária de Monserrate, herdeira da velha Escola Industrial e Comercial de Viana do Castelo, com projetos muito enriquecedores, que se recomenda tenham continuidade. Há três anos, numa parceria alargada, participámos ativamente na homenagem ao Mestre Carolino Ramos. Na realização de um filme sobre aquele que era denominado o “Pintor de Viana”, com o envolvimento da Escola, mostrou mais uma vez a sua criatividade, que manifestou de igual forma em todos os outros eventos acontecidos.
Continuava a congeminar projetos, mesmo agora que a doença o atacou, traiçoeira e impiedosamente. Comecei a saber muito cedo que ia ter um combate duro do qual talvez saísse perdedor, tal como aconteceu. Na última visita que lhe fiz, acompanhou-me até à porta. Costumava ali ficar até ao meu desaparecimento no dobrar da esquina. Não sei se tal aconteceu desta vez, porque me faltou a coragem de olhar para trás, já que pressagiava a despedida final. Fomo-nos correspondendo por correio eletrónico e novas visitas programadas não aconteceram, dado o seu enfraquecimento físico. Já no hospital, enviou-me o último email a 29 de maio, manifestando confiança na sua recuperação, prevendo um encontro breve, no qual ele próprio não devia acreditar. Partiu, julgo que sereno, procurando não constranger ninguém, como era próprio de si. Só posso dizer que perdi um dos meus melhores amigos. Fica em memória a sua bondade, o seu sorriso e o seu esmero na elegância de estar.