Apagou-se um sorriso simpático e generoso

António Viana partiu. Se pudesse, de sorriso nos lábios, dir-nos-ia para não ficarmos tristes e que do outro lado nos esperaria para nos abraçar de novo. Mas recomendaria, ainda, que não tivéssemos pressa e, enquanto por cá andássemos, fossemos permanentemente solidários com todos e em tudo. Cidadão de esmerada educação, conversador afável e elegante na relação com aqueles com quem se relacionava, exibia os contornos do que poderia e deveria ser a sociedade da tolerância, do respeito e dos equilíbrios.

Era um Homem de estudo, de investigação constante e de tertúlias onde recebia e dava conhecimento. Tudo lhe interessava, a começar nas gentes e nas coisas da sua terra, na sua Areosa querida ou na Viana que o deleitava pela sua beleza. Costumava dizer que era insaciável no conhecimento e que em cada descoberta via um pequeno tesouro. Mas soube doar todos os tesouros que foi descobrindo. Como tanto desejava não levou nada com ele.

Despojou-se de todo o conhecimento adquirido, que transcreveu em cinco livros editados; em cerca de uma centena de artigos que escreveu para a nossa “Aurora”, como gostava de afirmar com orgulho, até por ser um dos mais velhos assinantes; nos intensos artigos para os cadernos do Centro de Estudos Regionais, “CER”; para o “A Falar de Viana”, para os opúsculos do “São João da Ponte Nova”, para revistas e para tudo o que lhe solicitavam.

Mas ia mais além: o que tinha em arquivo digital foi previamente enviado aos amigos, em circuito aberto, para que todos soubessem por onde é que circulava o produto da sua investigação de anos.

Nos livros que escreveu, “A falar de Areosa”, “A Falar de Abel Viana”, “A Falar de Mário Viana”, “Por Amor a Viana e a Areosa” e “A Falar de São Mamede – mosaicos”, fez constar quanto julgou de absoluto interesse, desde a informação abundante à iconografia que advinha do seu espólio. Na obra “A Falar de Abel Viana” (um dos notáveis em Portugal nos domínios da etnografia e da arqueologia), o “tio Abel”, como dizia respeitosamente e com saudade, António Viana foi ao esmero e nada lhe escapou deste insigne vianense. Bem podemos dizer que dificilmente encontraremos melhor em Portugal. O Município de Beja, onde também Abel Viana foi ilustre, como diretor museológico e arqueólogo, adquiriu um número significativo de exemplares, contrariamente à sua Viana, que apesar de lhe dar nome de rua, lhe desconhece a obra. Há coisas assim…

António Martins da Costa Viana nasceu na Povoença, Areosa, em 6.11.1936. Nesta freguesia fez o ensino primário, tendo, de seguida, transitado para a Escola Industrial e Comercial de Viana e, posteriormente, para o Instituto Comercial do Porto. Habilitado com o Curso de Administração Ultramarina, foi funcionário dos Serviços de Administração Civil em Moçambique, desde chefe de posto administrativo até administrador de concelho.

Licenciado em Ciências Político-Sociais, após o retorno a Portugal, foi funcionário no Instituto Nacional de Sangue, na Secretaria-Geral do Ministério da Agricultura, na Direcção-Geral da Pecuária e na Direcção-Geral do Tesouro, nas áreas da Gestão de Recursos Humanos, Financeiros e Patrimoniais, como técnico superior, chefe de divisão e director de serviços.

Viana e Areosa muito lhe ficam a dever. A sua devoção à investigação de anos deixou conhecimento abundante que a muitos serviu; e a sua bondade calou fundo no coração dos que o conheciam e com ele privavam. A seu tempo, para que os vindouros o conheçam como exemplo de honradez moral e social, tudo será dito sobre este distinto Vianense que acaba de nos deixar. Neste jornal, onde, com a elegância que lhe era peculiar, António Viana escreveu dezenas de crónicas (felizmente publicadas em livro), lamenta a morte de um grande Amigo e apresenta à família, especialmente ao filho Miguel, as suas sinceras condolências.

Registe-se a homenagem que no seu funeral lhe prestou o Grupo Etnográfico de Areosa, com o Daniel Cruz (tão amigos que eram) a fazer-lhe o elogia fúnebre e um grupo de cordas (produto GEA) a tocar o Verde-gaio, que ele tanto adorava.
Até sempre, estimado Amigo. Para os crentes, será um até mais tarde.
GFM

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