Hermenegildo Viana é um vianense, de alma e coração, cujo trabalho de estudo e investigação da etnografia da região se tem destacado, sobretudo, na última década. Doutorado em Química, já trabalhou em terras de Sua Majestade e é mestre em Antropologia Social. É técnico superior na Câmara Municipal de Viana do Castelo, onde está desde 2011, envolvido, nomeadamente, na organização da Festa do Traje da Romaria da Senhora d’Agonia. É igualmente autor de textos para o catálogo do Museu do Traje, recentemente publicado.
Foi no Museu do Traje que o encontramos para uma conversa. A mesma revelou o que já sabíamos, alguém empenhado, estudioso e que gosta muito do que faz. Após nos ter proporcionado uma visita guiada àquele espaço museológico, disponibilizou-se para responder, da melhor forma, às questões que lhe suscitamos.
Para começar, quisemos saber da origens do Traje à Vianesa.
Explicar como surgiu é impossível. A citação mais antiga que existe é de um livro inglês que fala da produção de tecidos riscados e lisos, à base de lã, estopa ou linho, em 1851. Antes desta data não há informações. Há uma pintura que, se não estou em erro, é de 1864, mas parece que a modelo não tem avental, tem a saia de riscas e colete e camisa. Já se vê ali o traje, mas não sabemos se tem o traje completo, nem se era de festa, de ir à feira,…. Podemos dizer que todos os trajes são à vianesa porque são das mulheres de Viana. Na realidade, desde que Cláudio Basto definiu o traje de festa por Traje à Vianesa, isto em virtude da designação generalizada pelo país, e incorreta, de traje à moda do Minho – e era apenas usado em dias de grande festa, missas de Natal, de Páscoa, do padroeiro da freguesia da lavradeira ou vir à Romaria da Senhora da Agonia. No final do séc. XIX já havia essa noção de que era um traje de dias de festa, distinto do de domingar. Na década de 30, com a obra Traje à Vianesa, de Cláudio Basto, fica essa marca de traje à vianesa. Falarmos no início é complicado. Sabe-se que sofreu evoluções desde meados do séc. XIX até 1930, que é quando balizamos. O traje foi de certa forma balizado.
Destas evoluções, quais foram as mais substantivas?
As de maior destaque foram, segundo Afonso do Paço, suportado por algumas fotografias, por volta de 1875, quando se começaram a usar aventais tecidos no tear. Ao colocarem o avental sobre a saia, a algibeira, que era usado por dentro da saia – na abertura da saia – exterioriza-se, fica ligeiramente sobre o avental (entre este e a saia) e será, provavelmente a partir desse ponto, que se começam a decorar as algibeiras. Na década de 80 do séc. XIX já se vêem vários retratos de algumas freguesias e todas elas têm avental e algibeira. Acontece que, entre esse período e o final do séc. XIX – estamos a falar de 1880 a 1899 –, os aventais evoluíram muito e rapidamente. De padrões completamente geométricos, só de quadrados e triângulos, passamos a ter, ainda, Tanbém harpas e passarinhos, flores pequeninas e, ao virarmos para o séc. XX, os aventais começam a ganhar uma dinâmica muito grande com o surgimento de outros padrões. Até que chegamos algures entre a década de 10 e a década de 20 do séc. XX que vemos aqueles aventais de rosas a aparecer. Agora isto, provavelmente, está tudo interligado com a mente criativa das nossas tecedeiras, mas também com os esquemas de croquis de ponto de cruz do séc. XIX. Encontramos, nos esquemas destes, elementos inteiros dos nossos aventais. Provavelmente, é um cruzamento de informação, ou seja, as tecedeiras terem acesso a algumas revistas de alguma senhora. É uma suposição, mas realmente encontramos, por exemplo, elementos inteiros de uma barra com um determinado pormenor que encontramos em certos livros de ponto de cruz de casas famosas de revistas de moda do séc. XIX. Nos finais do séc. XIX deixam de se usar os lenços nacionais (de Alcobaça) para dar lugar aos da Europa de Leste. Como eles chegaram cá, não fazemos a mínima ideia. Sabe-se o que é apontado por Afonso do Paço e Cláudio Basto. Um diz que eram austro-húngaros, outro que seriam da Europa do Leste. Realmente, na Rússia havia várias fábricas de estampagem de lenços em lã e com padrões muito similares aos nossos.
O uso do traje também dependia da própria condição social.
O traje começa por ser usado pelas filhas e mulheres dos lavradores. Isto a partir de 1850. Mas, já em finais do séc. XIX, temos Verificou-se mais outro uso do traje. É o que era usado pelas filhas dos lavradores e a aristocracia portuguesa (como do Porto ou Coimbra) que iam para as Caldas do Gerês e, na época termal, faziam uma noite temática, vestindo-se à minhota. E temos imagens delas com bons trajes, com mais detalhe, mais qualidade do que é usado pela jovem camponesa dos arredores.
Mas em que alturas eram, essencialmente, utilizados os trajes?
O traje à Vianesa, como é de festa, era usado pelas jovens lavradeiras na missa de Natal, de Páscoa, romaria do santo padroeiro da sua freguesia (e talvez da vizinha) e para virem à Senhora da Agonia. Mas para esta, é já na década de 10 do séc. XX. Abel Viana ainda menciona que não se recorda, em criança, de ver lavradeiras nas festas da cidade. É mais tarde que ele faz essa menção. Os outros trajes de domingar eram usados para ir à missa e à feira, os do trabalho ou do cotio para os trabalhos da semana, e o traje de noiva ou mordoma eram mesmo só para situações muito pontuais. Tirando isso, há a questão que, desde o final do séc. XIX e XX vemos a burguesia e aristocracia a efetuarem quermesses e piqueniques vestidos à moda do Minho. Havia uns trajes chamados de fancaria que eram feitos com o detalhe do traje, mas com o mínimo rigor. Às vezes, quem vinha, de Lisboa, de Faro, de Coimbra, das Beiras, dizem coisas como ‘a minha mãe tinha um traje à vianesa’. E, realmente, têm. Se calhar, com 100 anos. Mas era um traje que foi comprado como uma recordação de Viana do Castelo. E para as crianças vestirem ou no carnaval ou para tirar um retrato e mandar para a família, muitas vezes mal vestida, sem o lenço. Para mim, na parte antropológica e social, o interessante é ver que temos as lavradeiras com o seu traje (usam-no como melhor roupa num dia de festa) e, depois, temos a aristocracia a copiá-las desde finais do séc. XIX. Não foi uma influência negativa, até havia uma certa vaidade ao verem que as senhoras vestirem a roupa delas.
A que se deve esta longevidade do traje à vianesa?
A primeira parte tem a ver com o período romântico. Por exemplo, as edições da Ilustração Portuguesa – antes de falarmos um bocado no Estado Novo. Temos a parte de Belle Epoque. Temos a aristocracia portuguesa – faziam quermesses, bailes, no Carnaval, nas Termas, em que toda a gente tinha de ir vestida, a rigor, à minhota (traje de Viana). Em várias edições da Ilustração Portuguesa vemos quermesses em Coimbra ou Espinho com senhoras trajadas à minhota. Na Belle Epoque apanhamos um bocado do período romântico e aquela ideia, por exemplo, do Minho que foi considerado um bocado como os ALPES SUÍÇOS. O Minho pitoresco, a lavradeira bonita, o colorido do traje, o ouro, tudo isso. Nas outras regiões do país, temos grandes propriedades, temos os senhores. Aqui acabamos por ter, devido à divisão da terra (minifúndios), várias casas da lavoura, quase de autosuficiência, com uma produção caseira, a produzirem o seu traje. Elas é que ditam um bocado, em cada aldeia ou na região, a moda de trajar, dá-se esse colorido no traje… Isto realmente, é um Minho pitoresco. É bonito, agradável, depois fazem estas recriações e isso acontece um bocado até à 1ª Guerra. Em 1919 faz-se o primeiro espetáculo que vai dar, mais tarde, asas à festa do traje e aí impõe um conjunto de regras: as raparigas têm de vir de camisa, de colete, para não virem de blusas, as músicas têm de ser tradicionais, ou seja, ditaram um bocado o que deveria ser. Isso deu alento porque havia prémios. Davam peças de ouro. Mas as raparigas não gostavam. Sentiam-se como o gado na feira. Já entrevistei pessoas com quase 100 anos em que, nos anos 40, eram colocadas no Jardim, à beira do Girassol, em exposição. Na década de 30/40 do séc. XX temos a Maria Emília Vasconcelos, a Luísa Cerqueira, entre outras meninas da cidade, que tiveram de vestir o traje para que as raparigas da aldeia não tivessem vergonha de serem as “parolas”. Houve esse 1.º movimento. Desde a 1.ª Guerra que o traje tem andado aos altos e baixos, ora está em moda, ora cai. Em muitas terras, as roupas velhas, queimam-se, deitam-se fora. Mas aqui não. A Parada Agrícola foi em 1908, mas, só mais tarde, vestiram e dá origem ao Cortejo. A primeira Festa do Traje decorreu em 1919, depois, na década de 20, mas, nos anos 30 realiza-se de uma forma mais regular. Havia o grupo de Carreço na década de 20, as Lavradeiras da Meadela, em 1935 e o Grupo de Santa Marta, em 1940. Ou seja, teremos que ver estes elementos todos em conjunto – costuma-se dizer que o Estado Novo é o responsável por isto. Deu o seu contributo. Mas temos de ver que já vínhamos com uma Festa do Traje e uma Parada Agrícola antes do Estado Novo intervir. Este, a única coisa que fez, foi subsidiar, por exemplo, os cartazes, a divulgação da festa para que mais gente viesse à cidade. Isto levou a quê? A promover o camponês, a camponesa, eram trabalhadores, e ao promoveram a Parada Agrícola e a Festa do Traje, estão a reconhecer a beleza do traje.
O que acontece? Em vez de se desfazerem dos trajes, continuam a fazer mais. Porquê? Sabem que, no ano seguinte, provavelmente, vão à Festa do Traje ou à Parada Agrícola, e querem ir bem vestidas. Então continuam a tecer, a bordar. Se não fosse aquele impulso, hoje nem tínhamos os trajes nem as festas. Porque, se, nas casas das nossas aldeias há centenas, para não dizer milhares, de trajes antigos, é graças aos trajes terem uma utilidade. Ao O participarem na Festa do Traje, no Cortejo e nos grupos folclóricos.
As cores… têm alguma relaçao com o modus vivendus das pessoas?
Temos que ver que, já em finais do séc. XIX, se tingia com vermelho, o preto, o verde e o azul com produtos químicos. As mulheres vinham às drogarias e compravam uns vidrinhos, uns pozinhos como elas lhes chamavam. Já, normalmente, já não tingiam com tintas naturais de plantas. Não encontrei memória viva de alguém a tingir com plantas. Agora com esses produtos químicos, em finais do séc. XIX, já se tingia, nas casas de aldeia, o vermelho, o azul, o preto, o anil e o verde. Quanto às escolhas das cores, a introdução do vermelho ninguém sabe de onde é que vem; penso que terão sido os ingleses a trazer porque eles é que foram à Turquia e trouxeram o que chamam de turquey red (vermelho da Turquia). Foram lá, aprenderam a tingir com aquele vermelho forte, julgo que será assim que aparece aqui em algum ponto no séc.XIX. Porque isto foi no princípio deste século que os ingleses foram à Turquia e conseguiram a receita de tingir. Talvez tenha sido por aí. Começamos a ver no tal livro os tecidos riscados com os ingleses. Eles mostraram lá os produtos ingleses ou britânicos que eram importados para Portugal. É interessantíssimo ver que há xailes lisos, estampados, lenços, baeta, merino… ou seja, na maior parte dos tecidos de traje de noiva víamos que era importado do Reino Unido. Não quer dizer que não existisse produção nacional. Mas também havia importação. Das cores, o vermelho é associado à juventude, ao bem-estar; o preto, além do luto, tem a ver com a questão do casamento, com o facto de ser uma roupa que vai servir à mulher para a vida toda, para qualquer situação; o traje de dó é uma forma de aliviar o luto (para uma pessoa não passar de preto para vermelho); a questão do verde surge como a cor principal no traje de Geraz e está associado à visita de D. Maria II, em 1852, a Viana, em que foi almoçar a Moreira de Geraz do Lima (foi e regressou de barco; não ficou lá, como dizem). Azul é uma criação algures na década de 40 ou 50 do séc. XX. Tentei saber junto de senhoras mais velhas e dizem-me que apareceu quando eram novas. Mas não sabem porquê.
Que podemos esperar da Festa do Traje deste ano ?
A Festa do Traje, este ano regressa, mas ainda é de forma contida. A temática está associada a uma exposição aqui no Museu do Traje, que tem a ver com o traje popular vianense, e as memórias de um povo. Porque são memória que conseguimos recolher de pessoas que nasceram há 70/90 anos. Estamos a ver os trajes dos anos 30, 40 e 50, quando se está a diluir com os tecidos industriais. Será, um bocado, uma Festa do Traje diferente. A Festa do Traje, no passado, era um espetáculo que demorava, no mínimo, três horas. Decorria no domingo à tarde, podiam passar três mil trajes, mas, literalmente, assemelhava-se mais a temática associada ao Cortejo ou à Festa do Traje. Escolhemos alguns dos trajes regionais e damos destaques. O espetáculo de três horas passou para hora e meia, ao domingo à noite, antes do fogo – desde 2018/2019, temos aproveitado para introduzir novas tecnologias, ou seja, fazemos gravações com pessoas de idade e juntamos os testemunhos no traje. A Festa do Traje é um espetáculo etnográfico, mas acabamos por ensinar às pessoas, dar algum conhecimento, numa forma de espetáculo, ou seja, com danças, cantos, para perceberem tudo o que está à volta do traje. Porque um traje é muito mais que um conjunto de peças de roupa. Há todo um conjunto de memórias, vivências, usos e costumes.
E o papel dos grupos folclóricos?
São essenciais. Houve um senhor que entrevistei há pouco tempo que deu um depoimento muito engraçado. Disse que VIANA É O CORAÇÃO, MAS AS FREGUESIAS são o sangue. Posso dizer isto também em relação aos grupos folclóricos. Se não fossem estes e a recolha que fizeram, mesmo que tivessem (em alguns casos), misturado peças de vários trajes, estão ali os. Mas em questões de festas e divulgação da nossa riqueza etnográfica, os grupos folclóricos são os nossos maiores embaixadores.
O Estado Novo, diz-se, terá contribuído para um menor rigor ao privilegiar o espetáculo?
Não foi só o Estado Novo. Julgo que foi, até, mais ao contrário. O Estado Novo apercebeu-se que tinha aqui uns trajes maravilhosos. O traje à vianesa –que já existiam antes de entrarmos no Estado Novo já existia. Não se usava tanto ouro. Mas já havia. E havia casas com bastante ouro também. Temos aqui uma região com traje colorido, bonito, com peças de ouro. Ainda por cima eram camponesas que trabalhavam duríssimo, por vezes os homens até emigravam, elas eram as matriarcas da família, eles viram isto como um manancial de promoção da mensagem que eles queriam fomentar, a do povo feliz a trabalhar. Ou seja, E eles aproveitaram isto, ou seja, e é daí que, ao fomentarem a Festa do Traje com alguns fundos para a realização dos espetáculos estão a promover aquela cultura. Agora… o traje evoluiu mais um bocado. As saias subiram um pouco, puseram mais ouro. Mas se vamos ao rigor etnográfico – entre o da parte do traje e o da música –, há trajes que não podiam dançar certas músicas. No tempo de determinadas músicas não havia aquele traje. Não podia haver concertina porque, em 1919, quando Abel Viana organiza um Grupo da Areosa – poderia ter sido o 1º grupo foclórico – não há concertina, nem acordeões. Há violas, guitarras braguesas, violino, flauta transversal, cavaquinho, e a um ritmo muito mais lento. Não tem nada a ver com o tipo de música que recolhemos hoje, tinha muito menos a velocidade. Depois, na década de 40, já vemos concertinas, altas velocidades, saias mais curtas, um rodopiar mais intenso, e, depois, no meio disto tudo, temos ainda o tipo de canto como o das Cantadeiras do Vale do Neiva. À capella. Era isso o que se cantava no campo, no trabalho, no monte. Cantavam as mulheres… e, às vezes, os homens com elas.
Em Viana, qualquer que seja o nível etário ou social, todos se orgulham do traje e do folclore!
Costumo dizer que há várias formas de uma pessoa gostar e amar as nossas tradições. Uma porque nasceu cá e, se calhar, a avó ou bisavó era de uma freguesia, foi tecedeira, teceu, vestiu e usou, ainda há uma ou duas peças em casa e há aquele afeto por elas. Outras são pessoas que vêm morar para cá e apaixonam-se por isto. Ao fim de muitos anos também fazem um traje ou compram e desfilam. Depois há as pessoas de fora que veem este momento mágico e querem fazer parte, compram ou alugam o traje e participam na nossas festas. É lógico que isto é interessante em termos etnográficos, ver onde é que isto vai-nos levar. Só o tempo o dirá!
