O filme português “Super Natural”, de Jorge Jácome, venceu o prémio da crítica do 72.º Festival de Cinema de Berlim, que decorreu até dia 20 de fevereiro.
“Super Natural”, que integra o programa Fórum do festival, habitualmente destinado a produções mais experimentais ou que expandam as convenções sobre ficção e documentário, foi distinguido com o Prémio da Federação Internacional de Críticos de Cinema (Fipresci).
Para o conhecer melhor, A AURORA DO LIMA esteve à conversa com este jovem vianense.
Conte-nos o mais relevante do seu percurso, designadamente a nível académico e como cineasta?
Nasci em Santa Maria Maior em Viana do Castelo, mas depois dos quatro aos 11 anos estive a viver em Macau e regressei para Viana do Castelo para estudar em Monserrate, onde na verdade, tive o meu primeiro contacto com o cinema numa iniciativa da Ao Norte – Cineclube de Viana do Castelo. Aos 19 anos fui estudar cinema para Lisboa para a Escola Superior de Teatro e Cinema e posteriormente fiz uma pos-graduação em França na Le Fresnoy – Studio national des Arts Contemporains. Hoje em dia moro em Lisboa, vivo e trabalho só do cinema.
Um filme que é difícil de explicar sobre o que é
O filme galardoado anda entre a ficção e do documentário. Conte-nos um pouco do seu argumento? Se possível fale-nos um pouco da linguagem estética e “escolas” que segue?
O “Super Natural” é um filme que é difícil explicar sobre o que é. Porque é sobre muitas coisas ao mesmo tempo. Mas esse talvez seja o ponto de partida do filme.
O filme vai-nos revelando que o “natural”, seja de um corpo, de uma imagem, de um fruto, de um som ou de um objeto, é sempre mais complexo do que aparenta ser. Chamamos-lhe, por isso mesmo, Super Natural.
O filme vai-se desenrolando por capítulos que misturam contextos, olhares, curiosidades, ficção e realidade, cruzando conceitos de física quântica com videoclips, biofísica com momentos de humor e conceitos de engenharia com poesia.
Qual a duração desta longa metragem e qual o circuito de exibição que v ai seguir? Que expectativas tem?
Este filme tem 85 minutos e foi rodado na ilha da Madeira com a companhia Dançando com a Diferença – que desenvolve o seu trabalho aliando pessoas com e sem deficiências na criação de objetos artísticos – e o Teatro Praga. Estreou agora na secção Forum da Berlinale e vai continuar a circular por uma série de festivais e cinemas pelo mundo inteiro. Em breve, e ainda sem datas fechadas, o filme vai poder ser visto em Portugal.
Próximos projetos?
Estou neste preciso momento a acabar a rodagem de uma curta-metragem que envolve cogumelos mágicos e pombos correio e depois disso tenho uma nova longa-metragem para desenvolver que ainda não sei se filmarei este ano ou no próximo.
Internacionalização do cinema português
Qual a sua opinião sobre o atual momento do cinema português? Um recente inquérito indica que o cinema é a atividade cultural mais praticada pelos portugueses. Vê TV e projetos como o da Netflix como concorrentes desejáveis ou indesejáveis?
Acho que a maior parte das pessoas não tem a perceção do quão internacional é um certo tipo de cinema português. É certo que é visto como um cinema de nicho, especializado, mas é um cinema altamente original e que consegue ser muito divertido. Acho que, enquanto espectadores, precisamos de aprender a ver e a interpretar os filmes, para podermos estar mais recetivos ao que nunca vimos. Para mim foi muito importante, por exemplo, o acesso aos programas do cineclube Ao Norte – tanto com os filmes que estão disponíveis para ver em casa, em DVD, como os filmes que mostram nas sessões cineclubistas no Verde Viana.
Ter acesso a filmes em casa não substitui a experiência de ver filmes no cinema: a nossa disponibilidade emocional e afetiva é muito maior e muito mais intensa numa sala de cinema. Ainda assim, há muitas formas de expor narrativas ou sensações que podem ser oportunidades de expandir a nossa cultura visual. A TV e os projetos de plataformas (como a Netflix) são apenas mais uma, como são os vídeos no Tik Tok, os filtros de Instagram ou os jogos de computador.
