Após frequentar um curso de Operações Especiais no CIOE, em Lamego, fui mobilizado, integrando uma Companhia de Comandos e Serviços de um Batalhão de Caçadores, formado em Évora.
Conjuntamente com muitos outros militares, embarcamos no Vera Cruz, com destino a Angola.
Depois de um curto período no Quartel do Grafanil, em Luanda, partimos numa coluna que integrava viaturas militares e diversas civis, como suporte logístico, para a deslocação do Batalhão, constituído por três companhias operacionais e uma de Comandos e Serviços.
Ao fim de dois dias de deslocação chegamos ao destino, Norte de Angola, na área de São Salvador do Congo, foi uma área muito fustigada pela guerra, não havendo quaisquer populações nas imediações da sede do batalhão e das companhias, apenas as casas que outrora foram habitadas e que agora serviam para o aquartelamento das tropas.
O batalhão não teve a vida fácil, porquanto tivemos diversas baixas e muitos feridos numa das companhias operacionais.
Numa das emboscadas sofridas, em que participei em socorro, do grupo emboscado, no qual morreu um alferes miliciano que tinha frequentado comigo em Lamego o curso de operações especiais, e mais sete militares incluindo um furriel miliciano (que tinha conversado comigo enquanto bebíamos uma cerveja CUCA pouco tempo antes), também participaram elementos de três outras companhias em socorro.
Findo os combates, um furriel miliciano da minha Companhia CCS avistou guerrilheiros a fugirem por uma linha de água, informando o capitão presente para os perseguir, ao que o capitão lhe respondeu, vamos mas é embora.
No final, cada grupo seguiu para o seu aquartelamento, depois de tratar os mortos e feridos.
O meu grupo só regressou no dia seguinte, tendo pernoitado na sede da companhia emboscada.
Quando chegamos ao local onde ocorreu a emboscada verificamos um corpo carbonizado na sequência do capim que ardeu devido à grande quantidade de material de guerra utilizado por ambas as partes, milhares de munições, granadas e outro material bélico.
Recolhemos o cadáver e a espingarda.
Foi uma emboscada onde morreram muitos combatentes dos dois lados.
O objetivo para além de provocar o maior número de baixas, seria capturar militares vivos, só não o conseguindo devido a um ato heroico de um militar que ao aperceber-se, levantou-se e com a sua arma impediu que fossem capturados.
Pagou com a vida este ato heroico, sendo condecorado com uma cruz de guerra.
Foi um episódio que deixou sequelas, levando muito tempo a debelar, mas ainda permanecem irreversíveis.
No encontro de quadros do batalhão em Aveiro, comemorativo dos 50 anos da partida para Angola, quando foi abordado este episódio um dos presentes levantou-se, afastou-se e não quis estar presente, seguia na mesma viatura ao lado do alferes que teve morte imediata.
Decorrido alguns dias um pelotão da companhia do citado capitão veio à sede do batalhão tendo o furriel que avistou os guerrilheiros dito a outro furriel que a sua Companhia era uma m… Este quando chegou à sede da sua companhia informou o capitão, que um furriel da CCS dissera que a sua Companhia era uma m…
Eu partilhava o quarto com o citado furriel, ficamos surpreendidos quando um soldado ordenança vem ao quarto a informar o referido furriel para se deslocar ao gabinete de operações, onde se encontrava o Tenente Coronel Comandante do Batalhão, o Capitão de Operações, o Capitão participante e o Capitão da CCS (era a cúpula do Batalhão o que pressupunha assunto muito grave, parecia um tribunal de guerra).
O comandante informou-o que tinha uma participação contra si por ter denegrido a Campainha do capitão participante, queria saber qual o motivo daquele comentário.
O furriel pediu ao capitão participante para falar no exterior, do gabinete de operações, o que foi acedido pelo Comandante.
No exterior informou-o que a sua mágoa se relacionava com a não autorização de perseguir o inimigo da emboscada.
O capitão participante volta ao gabinete e diz ao comandante que foi um mal-entendido, retirando a participação.
O furriel voltou ao quarto e comentou o que tinha ocorrido.
Passado algum tempo volta o soldado ordenança a informar o furriel para voltar ao comandante. Este queria saber o que dissera ao capitão, para este retirar a participação.
Responde-lhe o furriel, o Capitão é que tem de explicar porque a retirou, apesar da insistência não revelou o motivo.
É por mais que evidente que o furriel nunca diria o que se passou.
O comandante tinha muita consideração pelo citado furriel por ser um militar destemido e sempre voluntário para o desempenho de missões arriscadas, dando o assunto por encerrado.
Este furriel anarquista, não era homem de se assustar. Um dia foi preso em Lisboa e presente a um juiz. Depois de um interrogatório, mandou-o em liberdade, ao que lhe pergunta, o que é que o senhor Doutor Juiz entende por liberdade. Em consequência passou uns dias na prisão.
