“Sou um homem realizado, um feliz trabalhador e um cidadão sempre solidário”

É natural de Ponte de Lima (1955), tendo Viana do Castelo como residência, por isso ama ambas. Fala e escreve sobre a arte e a cultura em geral tal como cada um de nós é capaz de saborear um daqueles deliciosos pratos a que nunca resistimos. É o autor da rubrica “Amados Quadros”, que quinzenalmente aqui publicamos, com um avantajado número de seguidores, particularmente daqueles que gostam de arte e estão sempre ávidos de aprofundar os seus conhecimentos. Pinta, e muito, nada admirando que tenha exposto individual e coletivamente um pouco por toda a parte, em Portugal e no estrangeiro, e que esteja representado em inúmeras exposições públicas e privadas entre e extrafronteiras.

Autor de livros, muitos e variados, alguns deles em edições caseiras e artesanais, que lhe dão uma qualidade acrescida, acaba de apresentar uma trilogia de trabalhos sobre Ponte do Lima, Viana e Ponte da Barca, tendo-nos oferecido os três volumes, que vamos lendo com curiosidade. 

É precisamente por aqui que começamos a nossa conversa. Américo, como aconteceu esta tua última edição?

Esta não se trata propriamente de uma reedição dos livros que, em 2010 e em 2011, publiquei e apresentei na Biblioteca Municipal de Ponte de Lima, o “Ponte de Lima/In Perpetuam Rei Memoriam”, e os seguintes, “Terras da Nóbrega” e “Os de Refóios”, que apresentei na Biblioteca Municipal de Viana do Castelo. Os três livros, reunidos sob o tema “In perpetuam rei memoriam”, que não significa outra coisa senão “Para Memória Futura”, foram agora sujeitos a uma segunda tiragem, isso sim, com o único fim de serem reunidos na forma de uma Trilogia e oferecidos às mais variadas instituições, autarquias, escolas, arquivos e associações de Ponte de Lima, terra onde nasci e me criei, e de Viana do Castelo, minha amada cidade, terra de adoção e gentilíssimo porto de abrigo desde há cerca de 40 anos, tendo em atenção o facto de estarem a passar precisamente quarenta anos sobre a minha atividade artística e literária. Durante os anos 80 e 90, fiz recolhas de variadíssimas naturezas que me possibilitaram, depois, a partir de 2010, publicar estes livros que nada mais pretendem ser do que subsídios da Pequena História para a Grande História.  

Sobre a tua escrita, muita e variada, o que destacas dos trabalhos, particularmente os mais recentes?

Nos últimos anos, tenho tentado – e tenho conseguido – abraçar as minhas exposições de Pintura com a apresentação dos meus livros. Assim sucedeu com o meu último livro de poesia, “15 Poemas Celtas”, o meu primeiro livro de contos, “Constelações” e, depois, o meu segundo livro de contos, “Espelhos Vadios”, vai para dois e três anos, respetivamente. Creio que, ainda neste ano de 2023, havemos de conseguir fazer a apresentação pública, em Viana, do meu primeiro e muito ansiado livro na categoria do Ensaio, “Os Amados Quadros da Aurora”, fruto da compilação dos primeiros artigos (2021/2022) que tive o privilégio de escrever para a nova rubrica cultural da “A Aurora do Lima” denominada “Amados Quadros”. E estou finalizando a edição de um terceiro livro de contos e de um livro de memórias, enquanto o segundo volume de “Os Amados Quadros da Aurora” (2022/2023) vai conhecendo a “plaina do autor”, como aconselhava o sábio e glorioso Poeta Ovídio.

O que te dá mais prazer de fazer, pintar ou escrever?

É-me impossível dizê-lo, acreditem. A criação artística e literária somam expressões e registos que usam meios próprios para abordar o mesmo Imaginário Humano, elas acabam por ser duas faces – como as duas faces de Jano – da Linguagem Humana, que é incomensurável e, presumivelmente, infinita. E toda a Linguagem é, antes de tudo o mais, o resultado da capacidade humana de, em imaginação, vencer todas as barreiras espácio-temporais, de colocar todas as hipóteses e soluções, de, até, viajar nos tempos cósmicos, noutras dimensões, e de vencer a morte e o destino, de tudo solucionar através da prefiguração e da Representação Mental, resultando, no estádio final, na materialização de fenómenos de Cognição pura e simples. E de contarem histórias porque, nunca o esqueçamos, desde Homero e da sua “Odisseia”, que é esse o cerne de toda a questão. As duas possuem gramáticas próprias e as duas procedem aos necessários registos das suas criações, um, mais direto, digamos, através da cor, das formas e das estruturas visuais, na “pintura”, o outro, mais indireto, através de um conjunto de sinais gráficos convencionais a que chamamos “escrita”. Como Ilustrador de muitos livros, inclusive de poesia, tenho achado um supremo prazer nas tentativas de associação das duas disciplinas, é como se estivesse construindo uma plataforma onde elas pudessem sentar-se juntas e no mesmo plano de “igualdade” …

Ao longo da tua vida, tens tido uma atividade multifacetada. Fazes o que gostas ou o que a vida te proporcionou?

Tenho conseguido fazer o que mais gosto de fazer aliando-me de forma estreita com o que a vida me tem proporcionado, louvando sempre as lições que ela me trouxe, tão generosa, sejam elas de ir às lágrimas ou de rir às gargalhadas. Isso, a vida ensinou-me já há muito tempo: há que retirar as lições de tudo por quanto passamos, senão nunca seremos mais do que uns pobres egoístas lamurientos, uns revoltados sem um ideal, seres iludidos e perdidos em pequenos mundos e de muito curta visão para lá da soleira da porta. Quero eu dizer com isto, incapazes de servir os outros, a sociedade e os ideais que devem nortear-nos ao longo da nossa existência. A não ser assim, isso é bem triste, creio até que deve ser muito frustrante. Para mim, não devo, não quero (nunca, desde que me conheço) passar pela vida assim, como que a dormir, não. De resto, nunca nada me faltou, tive uma família e uma educação excelentes, passei por duas das mais prestigiadas Universidades, a de Coimbra e a Universidade Católica, servi o Estado Português em dois Ministérios, o da Educação e o da Justiça, e voluntariei-me, durante muitos anos, para Oficinas de Pintura e Desenho, que redundaram em grandes êxitos. Cumpro as minhas vocações. Sou um homem realizado, um feliz trabalhador e um cidadão sempre solidário. Que mais posso desejar?

Como vês o mundo da arte e da cultura em geral, particularmente em Viana do Castelo?

Quer queiramos admiti-lo ou não, o mundo está em guerra desde há séculos e séculos. Daí advém a noção de Caos, recorrente, nunca solucionado. Daí também deriva que a celebérrima “crise” seja coisa que, parece, se apegou a Adão e Eva lá no Feliz Jardim que habitaram, e se vem arrastando ao longo das gerações que têm habitado “este vale de lágrimas”. Calhou, naturalmente, às presentes gerações, as que habitam agora o Mundo, Portugal e esta maravilhosa Viana, a senhora dona “Crise da moda” que é a do momento que vivemos e, por arrastamento, os dos nossos pais e avós que nos formaram nos seus valores e ideais. Esta senhora dona “Crise” (conjunto de “crises”) tem características próprias, de acordo com a atualidade, com a globalização, com a evolução social, política, económica e tecnológica, já que todas nos servem de base de sustentação. É da Sabedoria Popular e da Filosofia que as “crises” são grandes oportunidades de crescimento, de progresso, de enriquecimento e de bem-estar. Assim será, estou certo. Até à próxima “crise”… noutro tempo, noutro lugar, com outras constelações no céu… 

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