Faz sete anos este mês, que no importante órgão regionalista, o Jornal “A Aurora do Lima”, que foi e será, sempre, a claridade dos nossos olhos, da nossa infância, da nossa juventude e da nossa velhice, que dei início a estas crónicas. O tempo passa tão depressa, que, na metamorfose da vida, ainda ontem era Natal, e hoje já o volta a ser.
O Natal torna-se num momento solene de paz e de doçura, porque tem o condão de incarnar o verbo purificador e, em simultâneo, consolador, que penetra fundo no coração de todos, despertando os verdadeiros sentimentos de fraternidade. Nesse dia, todas as desavenças se esquecem, para emergir no espírito das gentes, sob a inspiração transcendente daquele instante divino, a compreensão mais sublime do sentir da natureza humana. Destaca-se o amor da família e do próximo, subjacente de harmonia no lar e o desejo de tranquilidade entre gerações. O Natal tem uma influência irresistível sobre as pessoas, quer sejam ou não religiosas, acreditem ou não no nascimento de Cristo, portanto, venha de onde vier o eflúvio purificador que emana naquela data. Os que não têm família sentem um vazio enorme à sua volta, como que abandonados e sós, no seio imenso do nosso planeta. Nesta ocasião, presumo que não invejam a felicidade dos outros, lamentando, simplesmente, não poderem gozar, também, a hora que passa, procurando irmanar-se a eles por um pensamento de afecto. Uma influência misteriosa e doce os domina, uma nostalgia suave os amolece, uma saudade amarga os subjuga. Lembram o lar e a família que, por ventura, não constituíram, ou que vieram a desprezar, ou até a ser afastados por manifestos comportamentos ocorridos. No pensamento deles tudo aparece como um rebate de consciência para uma felicidade que não se revelou ou que nunca, tão pouco, trabalharam para a conquistar. A noite de Natal, noite de “Consoada”, é um clarão de concórdia que se repercute na consciência dos povos pelos anos fora. O Natal, no Alto Minho, é uma sinfonia de afeições e um manancial gastronómico com pratos adequados à quadra, embora divergentes de terra para terra. Conjecturam-se manjares apetitosos de ementas salgadas e de variada doçaria, numa mesa posta a preceito, que se mantém até à passagem da efeméride dos Reis Magos.
Jamais esquecerei o primeiro Natal que o meu computador da memória deixou registado. A ansiedade que o dia chegasse, os preparativos para o Presépio, as prendas que o Menino Jesus teria de deixar, aliado, a tudo isto, a paciência e o enlevo dado pela minha mãe. Gostaria, no impossível, de ser outra vez criança, passando pelo mesmo que passei? A resposta, interiorizada e assente no contexto da vida, deixou de possuir refutação, porque se perdeu nas vozes do tempo decorrido. Deixemos os anos quarenta. Vamos regressar à era dos foguetões comandados à distância, dos variados sistemas de televisão, dos aviões supersónicos, dos computadores, dos telemóveis da última geração, bem como de outros inventos mais sofisticados e evoluídos, que naquele tempo não haviam, a não ser nos livros ficcionistas de Júlio Verne.
O mundo movimenta-se, apresentando contrastes que revoltam e entristecem em qualquer quadrante do planeta Terra. Na existência da vida haverá sempre Natal, que se lembra numa simbiose dos modos de estar dos seres humanos “sem eira nem beira”, que não possuem tecto, e a viverem ao relento nas mais variadas artérias dos passeios públicos, ou em determinados recantos, tendo por base, somente, o ambiente da natureza, apoiados na caridade por alguém, e agravado, agora, pela traiçoeira pandemia do Covid-19, a que todos estamos expostos, na esperança de aparecer a vacina eficaz.
Nota: Esta crónica, por vontade do autor, não segue a regra do novo acordo ortográfico.