Uma pequena aposta na ferrovia

Uma pequena aposta na ferrovia

Aqui o escrevemos há pouco tempo: lamentavelmente, a ferrovia em Portugal acentuou o seu declínio depois do 25 de Abril. Não se julgue que o Estado Novo, em fim de vida, se preocupava tanto com o transporte ferroviário e que foi a revolução de abril a culpada da inversão deste desígnio. Quando a liberdade despontou, já a CP era um “elefante branco” em agonia. Tratava-se de uma empresa carecida de meios, incapaz de acompanhar os demais países europeus neste domínio e definir políticas transfronteiriças de interesse comum.

Mas, também, não é menos verdade que foi depois de 1974 que o transporte ferroviário mais definhou; quando a política do betão empolgava governantes, tal como aconteceu, aliás, com outros setores, alvo igualmente de políticas de irresponsável abandono, com saliência para o mar e, até mesmo, para a agricultura, que de arcaica, como justificavam, quase foi extinta.

Reduziram-se linhas, acabaram-se com estações, desinvestiu-se em material circulante e deixou-se o interior praticamente abandonado, até porque o setor privado, no domínio do transporte rodoviário, como alternativa, compreensivelmente, não existe para perder dinheiro; daí só praticar percursos minimamente rentáveis, que são poucos. Mesmo contando com compensações financeiras por parte do Governo.

Ainda é cedo para crer nos projetos de investimento agora anunciados. O Plano Ferroviário Nacional, segundo o ministro da tutela, vai ser apresentado este mês ao Parlamento. Este plano definirá quais as linhas – nacionais, metropolitanas e regionais – com serviços de passageiros; garantirá as ligações entre Portugal e Espanha; e assegurará o transporte de mercadorias, para além de garantir as ligações a portos e aeroportos. Prevê intervenção em cerca de mil quilómetros de linha, em crescimento e renovação, com um investimento de dois mil milhões de euros.

Muita ambição, escorada em muito dinheiro. Não sabemos até onde é que chega esta aspiração de longo prazo, tanto mais que é novidade a sua discussão no Parlamento, mas, se vingar, pode bem constituir um forte impulso num setor que dele está carecido. Acreditemos que sim. Contudo, para já, contentemo-nos com a eletrificação da nossa pequena linha que nos transporta até Valença, com suficiente atraso no planeado, à boa maneira portuguesa. Nada mau, para quem, na modernidade, tão esquecido tem estado.

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