A 28 de junho assinala-se o Dia Internacional do Orgulho Gay e, há dias, vendo uma notícia sobre uma marcha pelos direitos LGBT+ (sigla para pessoas Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgénero e demais orientações sexuais) que deu para o torto, ouvi alguém afirmar: “não sei porque é que ainda fazem estas marchas…”.
A frase foi proferida por alguém com menos de 30 anos. Indaguei. E, de facto, e como que indo ao encontro da opinião ouvida, segundo o Spartacus International Gay Guide Index, Portugal foi considerado, a par com a Suécia e o Canadá, o destino turístico mais gay-friendly (tolerante com a comunidade gay) do mundo, em 2019.
Realmente… O nosso país até foi pioneiro a aprovar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. E, de facto, e desde que assim é, há dez anos, já se registaram quase cinco mil casamentos deste tipo em Portugal.
No entanto, a mesma publicação acrescenta que, não obstante, o ambiente social do nosso país ainda é “estruturalmente homofóbico”… Apesar do evidente progresso legislativo até reconhecido internacionalmente, por exemplo, continuam a não ser promovidos quaisquer estudos públicos sobre a criminalidade que afeta esta população em Portugal, apesar dos apelos contínuos de várias organizações, o que é considerado revelador.
Há três anos, em Coimbra, um casal de pessoas do mesmo sexo foi agredido na via pública com extrema violência, alegadamente porque deram um beijo… Duas pessoas que deram um beijo de um lado; quatro pessoas que, por isso, decidiram bater-lhes, do outro.
Há quinze dias, na Hungria, foi aprovada uma lei que proíbe que se fale, exiba ou lecione conteúdos de cariz homossexual a menores de 18 anos de idade… Toda uma união europeia de estados que consagra a não discriminação sexual de um lado; um governo que unilateralmente decide fazê-lo, do outro.
Há onze dias, durante uma marcha LGBT+ (a tal que deu para o torto), em Fort Lauderdale, na Florida, nos Estados Unidos da América, uma carrinha de caixa aberta investiu contra os marchantes e atropelou várias pessoas, matando uma delas… Uma marcha de pessoas com bandeiras do arco-íris de um lado; uma pessoa que, só por isso, decide atropelá-las, do outro.
Hoje, em 2021, no Brasil, a cada 23 horas é assassinada uma pessoa devido à sua orientação sexual…
E, neste mesmo instante, neste nosso mundo, em 70 países, a homossexualidade ainda é considerada crime, punível com coimas e penas de prisão a partir de dois anos até perpétua e, em 13 desses países, a pena continua a ser a morte… Pessoas que são como são, de um lado; e pessoas que, por isso, e apenas por isso, decidem matá-las, do outro.
É por isso que ainda se fazem estas marchas.
*Diretor Artístico do Teatro do Noroeste – Centro Dramático de Viana