O conflito russo-ucraniano, já com mais de um mês, para além dos prejuízos irreparáveis tanto humanos como materiais, tem sido um laboratório de contradições e, ao mesmo tempo, provocando como que um estado de alucinação colectiva, onde emergiu uma figura mais populista que pragmática, mas que conseguiu optimizar os seus recursos pessoais e profissionais perante o mundo em busca de apoios de todos os tipos.
Sendo, embora, com os seus concidadãos, uma vítima deste conflito injusto, brutal e desnecessário, conseguiu o impensável, ou seja, o que ninguém (que me lembre) obteve até agora, e que foi fazer “ajoelhar” perante si diversos governos e parlamentos dos Estados, com os seus representantes meio alucinados batendo palmas, como se estivessem perante a visão de um líder mundial. Foi, realmente, espantoso assistir a estes mimetismos transmitidos pelas televisões e observar como se constrói a solidariedade. Falo, evidentemente, do presidente da Ucrânia, sr. Vladimir Zelensky, que tem vindo a evidenciar uma capacidade comunicacional deveras eficaz a que ninguém fica indiferente. A questão é saber se este estado de graça se manterá ou se acabará por fenecer e cair numa vala comum como tantos mortos nesta guerra, porquanto os meios de comunicação social mundiais acabarão por arranjar outros motivos de reportagem para não cansarem os seus auditórios, o que provocará um natural alheamento.
As conversações visando o fim do conflito, que têm decorrido entre a Federação Russa e a Ucrânia, também não deixam de ser curiosas. Enquanto os representantes das partes procuram encontrar uma fórmula mágica que ponha fim aos tiros e consequente ajuda às populações, o presidente ucraniano apela incessantemente ao mundo para que não só lhe ofereça material de guerra de todos os tipos para esmagar o inimigo invasor, como também para que sancione ainda mais a Federação Russa, nomeadamente na vertente económica. Esta, por sua vez, não deixa de continuar com os bombardeamentos, no seguimento da sua estratégia para alcançar os objectivos a que se propôs.
Por um lado, procura-se a paz, mas por outro incita-se e alimenta-se a violência armada, não se vendo por parte de ambos os países uma vontade sincera em terminar o conflito. Se houvesse boa-fé nas negociações, o rumo dos acontecimentos seria outro e dar-se-ia uma lição civilizacional, mas não acredito quer tal aconteça a curto prazo. Designadamente porque o sr. Zelensky manterá, sem dúvida, a sua dialética populista e contraditória, e o sr. Vladimir Putin não pretenderá sair de mãos vazias depois de tanta destruição, vidas ceifadas e recursos materiais perdidos.
A União Europeia, que também se prostrou perante o sr. Zelensky, afastando a Federação Russa da família democrática que tanto apregoa, irá, certamente, pagar elevado preço pela sua frontal hostilidade, seja pela sua importância política mundial, seja porque não é alimentando a guerra com armas que se constrói a paz. E a adesão urgente da Ucrânia à União Europeia, que alguns proclamam como se fosse a solução para todos os males, a efectivar-se a curto prazo, constituirá mais um problema por aquele país estar longe de obedecer às condições de ordem legal exigidas para a sua admissão e porque há outros Estados em lista de espera, como é o caso da poderosa Turquia, que vê o seu esforço de adaptação às normas europeias puramente ignorado.
Esta salada, onde se misturam tantos ingredientes, como interesses, hipocrisia, mentiras, inverdades, populismos, egoísmos e tudo o mais que alimenta suspeições, não me parece que possa vir ser devidamente digerida, antes provocando enormes dores gastrointestinais e uma era de incerteza para os cidadãos europeus no relacionamento com outros povos.
No momento em que escrevo estas linhas, ainda não vi o parlamento português prostrar-se perante o sr. Zelensky, e espero que não o faça por não constituir prática política. Não faltarão paladinos populistas ou alegados patriotas que desejem este mimetismo, mas os órgãos de soberania dispõem de canais próprios para tratar do assunto com seriedade, sem o recurso a espectáculos para o mundo, só porque está na moda.
Portugal tem dado todo o apoio aos cidadãos ucranianos que vieram e continuam a vir para o país, e isso é motivo de satisfação para todos, porque está em causa a solidariedade humana para com um povo sofredor. Apoio que, naturalmente, acredito que irá continuar.