Odette de Saint-Maurice, intelectual reconhecida (1918/1993), que conviveu de mãos dadas com o Estado Novo, depois do 25 de Abril, em entrevista, confessou compreender mal a democracia. Entre outras razões, justificava-se com o funcionamento do Parlamento, onde se gritava até ao insulto e, terminadas as sessões de trabalho, todos se entendiam como velhos amigos. Quem, assumidamente, cooperou a maior parte da sua existência com a ditadura; quem coabitou com a paz dos cemitérios e aceitou as perseguições e a morte de quem se batia pela liberdade, não podia compreender os direitos que a democracia consagra. Provavelmente, a Senhora terá morrido triste porque, apesar de escritora de méritos, viveu para exaltar um regime opressivo, vendo neste a solução ideal para governar Portugal, com os resultados que todos conhecemos.
Democracia é ter a liberdade de debater à exaustão as diferenças de opinião e, no fim, civilizadamente, selar a amizade, independentemente de consensos criados sobre o debatido. Democracia é contestar o que está mal, é sair à rua quando não há outras formas de reivindicar justiça. Democracia é eleger quem entendemos que é mais capaz de nos governar, mas igualmente saber destituir quem mal nos administra. Democracia é o que está a acontecer em Portugal em pico elevado, com debate aceso, exigindo melhor governabilidade, contrapondo-se ideias e projetos diferentes, exigindo respostas para os problemas que são patentes em vários setores da sociedade.
Não vamos entrar em contradição com o que aqui se escreveu na semana passada, quando dissemos que, no caso concreto da Saúde, era necessário dialogar mais e sermos comedidos no alarido; porque entendemos que há questões na sociedade que devem merecer, da parte de quem tem responsabilidades no poder ou na oposição, a obrigação de criar os consensos para que a governação da nação se faça com eficácia, a bem dos portugueses, particularmente dos mais necessitados.
Interessante seria ter uma democracia onde sempre o entendimento superasse a divergência, possibilitando a combinação das boas ideias, estabelecendo os melhores objetivos para o país. Não sendo possível, só temos que aceitar a democracia tal como ela é, não dando ouvidos a quem não abdica de suspirar pelo Estado Novo. Quem viveu o passado e o presente sabe bem que a democracia é o dia límpido que nos dá luz para sentir a beleza da vida; e a ditadura não vai além da noite escura, onde não dá vontade de sair à rua.