Florence, uma diva fora de tom

Florence, uma diva fora de tom

Este filme, baseado em fatos verídicos, é bastante elucidativo no que toca à promoção e patrocínio de supostos artistas, ou praticantes duma atividade desportiva, que se revelam como autênticos embustes, e mesmo assim, são beneficiados e privilegiados pela máquina envolvente, com o intuito de atingirem êxito para o qual não têm alento.     

É precisamente isso que se sucede com a principal personagem dessa história, chamada Florence Fost, uma mulher de meia-idade, que herdou uma fortuna colossal e que, de modo grotesco, anseia tornar-se numa conceituada cantora de ópera, sem que esteja propriamente habilitada para esse desígnio artístico. Com essa finalidade, cria o clube Verdi, de cariz intimista, para poder partilhar com os seus conhecidos e amigos um interesse de cariz megalómano por este tipo de música. 

Só que, ao permanecer imbuída nesse delírio, não se apercebe que canta pessimamente, antes sentindo-se convencida dos seus atributos vocais, por causa de um núcleo restrito que a bajula, e que, por diversas razões, não lhe demonstra a verdade acerca da sua horrenda voz, que destrói por completo a harmonia duma composição musical.

Tanto mais que essa farsa é estimulada pelo seu marido, Clair Bayfield, com o propósito de a manter entretida e focada nesse entretém, consciente de que esse desejo é a única razão de Florence viver, já que, sem filhos e sem a sensualidade vistosa doutros tempos, mais nada a pode satisfazer, dado o seu perfil vaidoso e apaixonado. 

Apostando em treinos regulares de canto, Clair ainda contrata o talentoso pianista, Cosme McMo, que se detém perplexo e estupefacto quando ouve pela primeira vez Florence a cantar com tão medíocre voz. 

Não obstante isso, denota-se uma mútua sintonia entre Florence e o feérico pianista, entendendo Clair que deveria preparar uma nova vaga de shows no Clube Verdi, convidando os habituais seguidores de Florence e remunerando alguns transeuntes, com o objetivo de estes aplaudirem efusivamente a prestação desta e, simultaneamente, simularem que adoraram a provável paupérrima atuação de Florence. Ao mesmo tempo, Clair aproveita essa maior ocupação e empenho desta para desfrutar mais a miude da companhia, da sua amante, Kathleen, uma mulher claramente mais atraente que a veterana Florence.   

Com o desenrolar do espetáculo de Florence, e de outros que de maneira planeada se concretizam, certos espectadores atónitos com o que vão ouvindo, a espaços, esboçam umas gargalhadas ridicularizadoras, sendo que, no final, ao ovacionarem a vedeta da noite, fico na dúvida se esse procedimento não se trata duma expectável coreografia ou então essa congratulação é devido ao facto de terem achado piada àquele número desconchavado.  

Contudo, as coisas começam a descontrolar-se quando Florence resolve experimentar altos voos, ao pretender a edição de um disco, para desespero de Clair, que desejava preservar as iniciativas musicais desta dentro de uma bolha, evitando expô-la à critica da imprensa e da sociedade, sujeita a um choque de consequências trágicas… Mau de mais, sem dúvida… 

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