Ao dar a meia-noite, no último dia do ano de 2022, haverá um conjunto de pessoas a quem essa transição sugere um mundo de pensamentos. Essas ideias, arquitectadas em face da incógnita que representa um ano que começa, divergem segundo o estado de espírito e o temperamento de cada um.
Existem as criaturas indecisas, que não sabem se devem saudar, com alegria, o ano que acaba de entrar. Fixam-se nas interrogações. Alguns pensam que o ano novo é sempre uma criança inexperiente, que vem às apalpadelas, atordoado, e a primeira coisa que faz é tomar informações com o que acaba de sair. Irá orientar-se. Com os pareceres obtidos, ficará de tal modo influenciado, que a conduta futura depende, em parte, do que lhe soprarem aos ouvidos.
Os optimistas, que vêem sempre claro, mesmo através das trevas mais espessas, para eles, o ano que entra são uma esperança nova que se abre. A vida, por muito má que seja, será, sempre melhor, do que a morte. Os pessimistas vêm tudo escuro, mesmo perante a claridade mais franca. A vida é uma tragédia e a morte a única certeza. Tudo é fugaz. A dor não para.
Realmente, os anos passam e o tempo tudo transforma. Para o bem?… Para o mal?… Sabe, cada um. Ontem, como hoje, hoje como amanhã, sempre aparecem as guerras, as doenças terminais a aumentarem, as pandemias, a fome a impor-se no globo terráqueo, a droga, a sexualidade selvagem a imperar, tudo aliado às lutas carregadas de inveja e de intrigas, onde a demagogia aparece disfarçada, porque escasseiam as tentativas de abertura de caminhos ao encontro de um equilíbrio comedido entre posições colectivas consideradas antagónicas. O prazer seria bom se fosse, sempre, honesto. Mas, por vezes, não o é. O sol quando brilha devia ser para todos, mas por antecipação é aproveitado para os mais espertos.
Neste circunstancialismo do existir os mais felizes, aqueles que naquele dia deixam de pensar, depois de bem comidos e bebidos, adormecem, tranquilamente, esperando pelo dia seguinte, o dia do Ano-Novo, para darem as apregoadas “Boas-Festas”.
O primeiro dia do ano de 2023, além do feriado que proporciona aos que trabalham a gozar desta simpática função social, todos reservam, por norma, esta ocasião para manifestarem aos seus amigos, aos íntimos e aos conhecidos mais próximos os desejos dumas melhores “entradas”. Expressamos aos outros o que a nós mesmos desejamos. Queremos que o ano corra próspero à bolsa, à saúde e aos amores, três aspectos que resumem uma felicidade legítima. E a verdadeira origem desta velha usança perde-se na bruma dos tempos…
Nota: – Esta crónica, por vontade do autor, não segue a regra do novo acordo ortográfico.