Carolino Ramos: Pulsão pela Arte: o estudo que faltava sobre o artista comprometido com Viana

Carolino Ramos: Pulsão pela Arte: o estudo que faltava sobre o artista comprometido com Viana

Carolino Ramos, Pulsão pela Arte é uma análise da vida e obra deste artista, que foi um dos mais interessantes atores da vida cultural vianense da primeira metade do século XX, onde viveu entre 1897 e 1961.  

Compreendendo bem esta ligação os autores estruturam o livro ligando a obra de Carolino (pintura e decoração das Festas) com os principais momentos da vida cultural vianense e nacional. Os autores (Álvaro Campelo, antropólogo e Gonçalo Fagundes, autor e divulgador cultural a quem devemos entre outros, a linha editorial do Grupo Desportivo e Cultural dos Estaleiros GDCENVC, e que hoje dirige o jornal A Aurora do Lima) conferem assim um interessante cunho documental ao livro, que é estruturado numa procura do “ethos vianense” (pág. 17) pelo artista

Os autores identificam na obra de Carolino Ramos um homem com um compromisso com Viana, onde identificam um triangulo de influências formado pela Ribeira e o rio, com os pescadores, a sua faina e o seu ócio nas tabernas, a Praça da República, com a sua monumentalidade e os cafés como espaço de sociabilidade e a Areosa, que a sua a sua raiz rural sempre visita: “Representou os espaços de mais intensa vida económica e social da cidade: o rio por onde circularam quase todos os produtos que o Alto Minho produzia em direção ao Porto, com destino a outras paragens e o dinamismo das docas comercial e de pesca. Carolina sentia como jamais algum pintor o terá sentido, esta vida incessante que envolvia dureza, onde o trabalho braçal, pela rudimentaridade dos meios de elevação e outros era permanente solicitado” (pág. 73)

É esta cidade que mostra na sua obra, filha de um Naturalismo que nada quis com as vanguardas da arte e se manteve fiel reprodutora do real, do que resulta um forte valor documental, que os autores tão bem souberam explorar no livro.

Outro tema que apaixonou Carolino Ramos foi as Festas da Senhora d’Agonia que representou, mas onde foi importante ator, dando-lhes, com as suas decorações, uma monumentalidade que nunca tinham tido e que desde aí sempre se procurou imitar, “desde essa data [1933] e até 1960 o mestre esteve sempre de forma empenhada com as festas dando projeção em termos nacionais e internacionais e emprestando-lhes um brilhantismo não mais igualado. Foi de longe o artista que mais e melhor conseguiu ideias para trazer novidade às festas (…) neste período a romaria particularmente no plano ornamental pertenceu-lhe por inteiro e praticamente toda a conceção saía das mãos do mestre” (pág. 144). O livro apresenta desenhos preparatórios e fotografias dos espaços depois de prontos nos capítulos “A emergência do Turismo e a valorização do espaço público” e” Outro cartaz: As Festas da Senhora d’Agonia”, mostrando bem este processo criativo e inovador do engalanar da cidade para a Festa.

Ficaram famosas as decorações que são apresentadas no livro, que nos revela ainda que Carolino, num admirável desejo cénico, fazia aparecer na cidade, de um dia para o outro, espantando assim os próprios vianenses. Aliás, é interessante ver como ele se apresenta como “Decorações artísticas de pintura gesso e papel. Cenografia e trabalhos de construção civil”, num recibo reproduzido (pág. 146).

O livro tem sempre presente um outro tema que é transversal à obra de Carolino e une este seu desejo de representar a cidade e participar na Festa: os trajes, através dos quais “Carolino Ramos tenta a síntese entre as expectativas folclóricas, como a afirmação de uma imagética associada ao mundo rural tradicional e às mordomas ao mesmo tempo que encena o espaço, consciente que o quer transformar numa experiência total e fazer dele um elemento arquitetónico que corresponda aos seus próprios objetivos de inovação, em diálogo com as transformações que se iniciam na cidade” (pág. 54) que ele representa em esboços, pinturas, cartazes, e até na decoração do edifício de gaveto da Rua da Picota com a Avenida (foto pág. 128)

É certo que Carolino Ramos não é um artista esquecido em Viana e já foi objeto de exposições e de estudos, mas este livro vem dar uma visão de conjunto deste homem, enquadrado no seu tempo, fruto de um trabalho de investigação em fontes da época e também no espólio do artista, muito dele nas mãos dos seus descendentes e de outros colecionadores privados. 

Fica assim desenhado um belo retrato deste homem a quem devemos ao lado de uma interessante obra artística a construção de uma imagem grandiosa das Festas que ainda se constituí como verdadeira imagem da cidade, que todos gostamos de rever todos os anos em agosto.

João Alpuim

 

Carolino Ramos, Pulsão pela Arte, de Álvaro Campelo e Gonçalo Fagundes.

Edição CMVC e CCAM, 2016

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