(26) A Loja de Fazendas!… (1)

(26) A Loja de Fazendas!… (1)

Quando era menino e moço, pareciam vivos os tecidos de lã e algodão, linho, seda, tafetá para forros e chita colorida, tal era a destreza do Caixeiro ao balcão no corte da peça medida com perfeição.

Memória que perdura… De vez em quando vêm ter comigo cores e aromas e textura dos tecidos. Uns lisos, lustrosos, translúcidos ou opacos; outros de padrões multifacetados, modernos ou clássicos.

Ainda brilha a alma da flanela e popelina! Retalhos em prendas pelos padrinhos aos afilhados, no dia de Aniversário ou na quadra festiva de Natal e renovação Pascal, para a confecção por medida: Arte do Alfaiate (perfeição do corte e seu bom acabamento), da Costureira e Modista dos últimos figurinos. Para tanta gente, lembrança de criança remediada, em alegria calma, quando recebia roupa usada por algum irmão mais velho. Lembranças que o vento leva, mas o tempo não apaga!

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Eram tantas as lojas de fazendas no Bairro da minha Infância!… Balcão de madeira corrido, tesoura e metro. Estantes, digo, prateleiras com as peças de fazenda (lanifícios) e outros tecidos, colchas, cobertores “da Serra”, xales, cachecóis, panos de lençóis, caixas de camisas, lenços, luvas, gravatas, artigos de chapelaria e miudezas nas gavetas.

Nas vitrinas cintilavam os tecidos da moda, ultraleves para o Verão, encorpados no Inverno; outros mais baratos, de uso corrente, num espaço recatado. Tecidos de fibras naturais, e/ou sintéticas, lisos, em relevo, com ou sem estampados: organza ou musselina, tule, cassa, cambraia, chiffon, crepe (drapeado), casimira; brocado, damasco, veludo e bombazina; cetim, percal; feltro, cotim, terylene, sarja, cretone, riscado…

Localizavam-se perto do antigo Mercado (“Praça”), ao pé do Jardim, onde se realizava a Feira Semanal. Outrossim na Praça da República, coração de Viana, até ao Largo de S. Domingos. Em meados de 1960, eram 23 os estabelecimentos de fazendas e tecidos diversos; 20 alfaiates com oficina própria (incluindo o Sr. Rocha na Rua de Altamira, n.º 30, onde recorria em criança, que o “Zé da Eustáquia” era mais arriba, depois da Rua da Olivença); 10 retrosarias (malhas e miudezas).

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Em 1995, no livro de minha autoria Geografia e Memórias da Baixa Vianense – Comércio, Serviços, Património, ed. Centro de Estudos Regionais, explico as funções tradicionais em extinção. Na página 23: «Os estabelecimentos comerciais que transformavam, pontualmente, matérias-primas e produtos semi-elaborados, vendendo ao consumidor urbano bens saídos, simultaneamente, do meio rural envolvente e dos circuitos de industrialização e de distribuição (“comércio grossista”). A “loja de fazendas” é um exemplo, vendendo a metro os tecidos mais variados para o sector de transformação a jusante (o alfaiate, a modista, a costureira), quando não dispunha de “alfaiataria” própria (confecção por medida) e de “camisaria”. Por meados do século XX, acumulava a função, anteriormente especializada, de “chapelaria”. Hoje, como é sabido, apenas subsistem alguns estabelecimentos “de tecidos”, que satisfazem a procura mais exigente, uma vez que se generalizou a “boutique de pronto-a-vestir”. Longe vai o tempo dos 7 negociantes de panos à Praça da República. O decréscimo acentuou-se a partir de 1960.»

Na página 29: «Outrossim, é visível a diminuição, até à extinção, de remotas artes e ofícios, conotadas com a pequena indústria de transformação. O alfaiate ilustra a redução drástica, como consequência da generalização das indústrias de confecção e consequentes lojas de pronto-a-vestir. Em Viana do Castelo subsiste um alfaiate com espaço próprio e “boutique” (Carlos Alberto Puga, na Rua da Bandeira, 101-103), depois de outros mestres terem “abandonado” a Arte (Júlio Meireles, José Emílio…, e já em 1994/95 Henrique Rodrigues “o Fresquinha” da Bandeira). Outros alfaiates operam nas próprias lojas de pronto-a-vestir, seja em arranjos pontuais das peças de vestuário, seja na execução limitada de fatos por medida, para o cliente mais exigente (do “Chevalier” ao “Barroso” e “Vieiras’s”, à confecção na “Chamada” ou na “Freilã”, enquanto a “Casa Americana” se apresenta como pioneira da alfaiataria industrializada, posterior às antigas oficinas de corte na “Casa Valença” e na também célebre “A Grande Chic”).»

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No Almanach de Vianna e seu Districto para 1912, «Lojas de pannos: Largo João Thomaz da Costa: Antonio Joaquim de Sousa Mattos; Bastos & Lima; Carneiro & Irmão; Deposito de Fazendas – Costa, Cerqueira & Comandita; Joaquim Lourenço dos Santos. Rua Matheus Barbosa: Arthur J. Ribeiro; Casimiro Gonçalves Correlo. Rua de D. Luiz [hoje, ruas Sacadura Cabral e A Aurora do Lima]: Francisco José d’ Araujo; João Rodrigues, filial na Praça da Republica; Jovencio Costa & Costa Bastos, filial na Rua 8 de Maio [actual Gago Coutinho]. Largo de D. Luiz [Matriz]: Miguel Albino Cerqueira. Praça da Republica: Cerqueira Marques & C.ª; Oliveira Valença & C.ª [João Passos d’ Oliveira Valença]. Rua Candido dos Reis: Antonio Ribeiro; M. Cerqueira. Rua da Picota: Francisco Luiz de Sousa (em frente ao Hotel Europa). Largo de S. Domingos: Avelino S. de Barros. Rua 8 de Maio: Albano Pacheco.» «Alfaiatarias: Oliveira Valença, Filhos & C.a, Praça da Republica; Grandes Armazéns do Minho, Praça da República [mais tarde, filial do Banco Nacional Ultramarino]; Manoel Antunes Cerqueira, rua da Bandeira: Vicente José Pereira e Manoel d’ Araujo Ferreira Soares, rua Candido dos Reis; Antonio Domingos d’ Araujo e Sebastião José de Barros, rua de S. Sebastião [hoje, Manuel Espregueira]: José Affonso Barciella, rua 8 de Maio: José da Martha, rua 8 de Maio; Secundino de Souza, rua Nova de S. Bento. Modas e confecções: Grandes Armazens do Minho, Jovencio Costa & Costa Bastos, Francisco Luiz de Sousa, Affonso Antonio Ribeiro, M. Cerqueira. 

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Anuário do Distrito de Viana-do-Castelo, Vol. I, 1932: Panos e miudezas: Alberto Mendes Pacheco, Aníbal Mendes Pacheco, António Gonçalves Ramos, António Joaquim de Sousa Matos, António Mendes Pacheco, “Armazém Ramos”, Avelino António de Barros, Carneiro & Irmão, Casimiro Gonçalves Correlo; Cerqueira Júnior & C.ª, Limitada; Cerqueira Marques & C.ª, Domingos Chamadoura Guimarães, João de Azevedo Vasconcelos, Joaquim Lourenço dos Santos (Viúva de); Joaquim Santos; Martins, Sousa & Ribeiro, Oliveira Valença, Filhos & C.ª, Suc.ºr; Oliveira & Irmão, Baltasar G. Ramos, Carlos Ribeiro Martins, Lda, Suc.ºr; João Mendes Pacheco, “Armazéns Santa Luzia”, Mendes & Silva. Alfaiatarias: António da Silva Rio, Avelino de Queiroz, Cândido Soares, Constantino Gonçalves Pereira, “Grande Chic” [R. Sacadura Cabral], Luiz de Passos Peixinho [corrijo: Luiz Maria Gonçalves de Azevedo, mestre e proprietário de “A Grande Chic”, e seu filho, também alfaiate, José de Passos Azevedo Peixinho, Rua Grande, 119, 1.º], João Martins, José Afonso Barciela, José Baptista Viana “Ciranda” [R. Grande, 106], José Lima, José Marta, Guilhermino Gonçalves, A. Meireles, Manuel A. Pereira, Manuel Ferreira Soares, Manuel Nogueira, Oliveira Valença, Filhos & C.ª Suc.ºr [Praça da República]; Pedro José de Abreu; Secundino Júlio de Sousa [R. da Bandeira]. Camisarias: Cardoso & Lino, J. Pinho, Oliveira & Irmão, Oliveira Valença, Filhos & C.ª, Sucessores. Chapéus para homem e criança: Carneiro & Irmão, António Pacheco. Chapéus para senhora: “Salão Wilson”, Filomena de Miranda, Maria Santos. Meias: “Casa das Meias” de Jorge Cardielos [mais tarde “Pomar Riolanda”, R. Manuel Espregueira]. Modas: “A Confiança” J. Pinho [R. Cândido dos Reis], Cardoso & Lino [R. Sacadura Cabral], Oliveira & Irmão [Praça da República]. Modistas: Emília da Conceição Gonçalves da Silva, Idalina de Oliveira, Irene de Almeida, Irene Gomes (roupas brancas); Lídia Palma da Silva, Margarida da Cruz Cardoso da Silva, Olívia Gonçalves Meireles (roupas brancas); Paulina Brousse, Terêsa Cândida Fernandes, Maria Ester Cardoso da Silva, Alice Malheiro.

Um dos anúncios: «Viúva Joaquim dos Santos, Jardim, 39 a 40 – Casa especialista de Fatos à Vianesa / Medalha de Prata na Exposição Internacional de Barcelona de 1929. Prémios em tôdas as exposições a que tem concorrido.»  

(Continua num próximo número)

Francisco Carneiro Fernandes

N.R.: O Autor não segue o novo acordo ortográfico

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