O médico João Espregueira-Mendes, com raízes familiares em Viana do Castelo, acaba de se tornar o primeiro português e ibérico a liderar a mais prestigiada sociedade mundial de traumatologia desportiva, a International Society of Arthroscopy, Knee Surgery and Orthopaedic Sports Medicine (ISAKOS).
A eleição deste reputado especialista em ortopedia com foco na traumatologia do joelho, pé, tornozelo e ombro, envolveu representantes de 114 países. A ISAKOS conta com mais de quatro mil membros e é tida como a organização de referência internacional, com sociedades parceiras nos cinco continentes, em traumatologia desportiva, promovendo avanços científicos e clínicos nesta área.
João Espregueira-Mendes tomou posse no último dia 11, durante o congresso da ISAKOS em Munique, Alemanha, iniciando um mandato de dois anos (2025-2027). A sua eleição é tida como o momento mais prestigiante de sempre na medicina desportiva portuguesa. Refira-se que a presidência da ISAKOS roda pelos cinco continentes e, por isso, um europeu é eleito apenas de 10 em 10 anos.
João Espregueira-Mendes tinha presidido à Sociedade Portuguesa de Astroscopia e Traumatologia Desportiva e à Sociedade Europeia de Traumatologia Desportiva, Cirurgia do Joelho e Artroscopia (ESSKA). Especializado em ortopedia com foco na traumatologia do joelho, pé, tornozelo e ombro, o seu percurso profissional passa também pelo ensino na Escola de Medicina da Universidade do Minho e a direção da Clínica do Dragão, atualmente Clínicas Espregueira – FIFA Medical Centre of Excellence, no Porto.
Liderar uma sociedade mundial
“Não é fácil para um português, nascido em Paranhos (Porto) e de uma família de Viana do Castelo, ter a possibilidade de liderar uma sociedade mundial a este nível. Para isso contribui o facto de hoje em dia a geografia e o sítio onde se nasce não ser praticamente nada limitativo relativamente aquilo que se pode fazer a nível nacional ou internacional. Por outro lado, o facto de Portugal ser um país cada vez com mais prestígio, o Norte e o Minho também serem de grande prestígio, com uma cultura própria e um conjunto de circunstâncias que nos transformam numa região muito apelativa para se visitar, faz com que o Mundo olhe para nós, hoje em dia, com outros olhos. Dá-nos a possibilidade de mostrar o nosso valor. Coisa que, em anteriores gerações, era muito difícil, que nos dessem palco e oportunidade para mostrar o que valemos”, referiu ao A AURORA DO LIMA.
Explicando: “Não significava que as gerações anteriores fossem piores do que a nossa. Não estávamos na União Europeia, não havia tanta facilidade das pessoas se comunicarem. Essa conjugação de fatores, juntamente com a melhoria da nossa qualidade universitária e técnica, ajudados também pela força tremenda que o desporto, e nomeadamente o futebol, tem na visibilidade internacional, ajuda imenso. Ainda agora aconteceu a vitória da seleção de futebol na Liga das Nações em Munique, enquanto eu estava lá (tinha uma reunião, assisti apenas na TV a partir do centro de congressos). Todas as pessoas presentes no congresso deram os parabéns pelas duas coisas: a minha presidência e a vitória da seleção de Portugal. Não fosse isto, não havia uma potenciação dos fatores. Estamos numa fase em que o país, a nossa cultura, o turismo, a ciência (nomeadamente a medicina desportiva) estão no melhor momento de sempre. Foi essa conjugação que me trouxe até aqui.”
Espregueira-Mendes explica ainda que a sua clínica, situada no interior do Estádio do Dragão, no Porto, é a clínica oficial de apoio ao FC Porto. “Tratamos atletas de todo o país, de todas as modalidades, porque somos FIFA Medical Centre of Excellence. Somos o único centro em Portugal e um dos poucos do mundo que tem esta acreditação. Dá-nos uma credibilidade de nível mundial. Tratamos atletas do mundo inteiro. Recebemos todos os anos mais de 100 atletas de alta competição vindos de fora do país (Europa, Austrália, Ásia, América Latina, Estados Unidos) para serem tratados na nossa organização.”
Dar palco a zonas
mais desfavorecidas
Quanto às suas principais preocupações enquanto presidente da Isakos, Espregueira-Mendes foca-se em três vertentes.
“Dar visibilidade ao mundo ibero-latino americano. Quando uma sociedade mundial tem um presidente português, não pode deixar de dar palco a zonas que geograficamente são mais desfavorecidas nas oportunidades. Não há dúvida nenhuma de que a América Latina, e até em parte a Península Ibérica, têm menos oportunidades numa sociedade deste tipo. Tenho obrigação e vontade de dar palco e protagonismo a estas sociedades, fazendo com elas mais cursos, mais congressos, mais estágios de formação, dando oportunidade a jovens que queiram vir à Europa e a outros sítios com condições mais modernas, e puderem aprender. É uma área onde tenho vontade e obrigação de ajudar.”
Quebrar
barreiras linguísticas
“Uma outra área é na quebra absoluta das barreiras linguísticas. Na atualidade, a nossa língua oficial é o inglês, mas, ainda assim, quando vamos a África, América Latina, Ásia ou Europa do Leste, muita população local não fala inglês. O meu objetivo é que, daqui para a frente, todos os cursos, congressos, webinars e formações práticas tenham tradução na língua local.
Por fim, dar oportunidade de, em países que não têm acesso – temos alguns da nossa história lusófona nessas circunstâncias – a esses palcos internacionais de melhoria, montar cursos com inteligência artificial ou realidade virtual para lhes dar acesso a uma formação de máxima modernidade. Isto vale para qualquer região do globo que não tem essa possibilidade.”
A terminar, o reputado médico, nascido há 65 anos, enfatiza a circunstância de ter família e propriedades em Viana do Castelo, onde vem com frequência, bem como residência de fim de semana em Ponte da Barca. Confessa-nos que, todavia, a razão que mais o leva à capital alto-minhota são as visitas ao Museu de Artes Decorativas por ser um colecionador de faianças de Viana e de faiança portuguesa. “É praticamente a minha segunda casa, até porque o museu foi deixado por um familiar meu, o meu tio-bisavô Manuel Espregueira e Oliveira”.
