Brumas do Tempo (XXXVII)

Brumas do Tempo (XXXVII)

A Arte Urbana de Bordalo II, que em 2024 tocou poeticamente o coração de Arcos de Valdevez, convida-nos a refletir sobre a tensão entre a estética e a ética do nosso tempo. Artur Bordalo (1987), mais conhecido como Bordalo II, transporta para o espaço público uma filosofia visual onde o belo nasce do descartado, onde a ruína encontra redenção. Mesmo sem concluir o curso na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, o artista transformou as ruas em tela e os restos urbanos em matéria escultórica, fazendo do lixo um manifesto.

A vaca Cachena, símbolo identitário do concelho, emerge da sua obra como metáfora de uma natureza que persiste, mesmo soterrada por excessos humanos. A escolha de resíduos urbanos como corpo dessa figura não é acaso: é denúncia e é proposta. No gesto de recolher objetos abandonados – detritos de obras, fragmentos de carros, restos industriais – Bordalo II reconfigura a narrativa do consumo. Mostra que aquilo que rejeitamos contém ainda potência de sentido e de beleza.

O seu trabalho, apresentado no MurArcos – Festival de Arte Urbana (2024), preforma uma estética da consciência: convoca-nos a ver, sentir e pensar. A criação frente aos próprios contentores de reciclagem adquire dimensão simbólica, quase ritual. É como se a arte se colocasse ali, no limiar entre o que se abandona e o que pode renascer, para nos lembrar que a cultura visual pode ser ferramenta de mudança.

Assim, em Arcos de Valdevez, Bordalo II não apenas embeleza o espaço; ele interroga-o. Faz-nos questionar a “sociedade extremamente consumista, materialista e avarenta” a que ele tão frequentemente alude. Propõe uma nova estética: aquela que une o ético ao belo, a memória local à urgência global. Porque, afinal, é na capacidade de transformar lixo em tesouro que reside a verdadeira arte – e, talvez, a esperança do nosso tempo.

Porfírio Silva

Outras Opiniões

Os leitores são a força que mantém vivo o jornal mais antigo de Portugal Continental.

Assine A Aurora do Lima por apenas 20€/ano!

Há 169 anos que o “A Aurora do Lima” faz parte da história económica e social do Alto Minho, com um impacto especial em Viana do Castelo. Este legado só é possível graças ao apoio dos leitores, que são o pilar mais importante na continuidade de qualquer jornal.

Para que esta caminhada de sucesso não tenha fim, convidamos a fazer parte desta história. Assine o “A Aurora do Lima” por apenas 20€/ano e tenha acesso a todos os artigos de um jornal com tradição, credibilidade e compromisso com a região.

Garanta já a sua assinatura e ajude-nos a manter viva esta tradição centenária!

Item adicionado ao carrinho.
0 itens - 0.00

Assine o “A Aurora do Lima”, o jornal mais antigo de Portugal Continental, por apenas 20€/ano!

Há 169 anos que o “A Aurora do Lima” faz parte da história económica e social do Alto Minho, com um impacto especial em Viana do Castelo.

Garanta já a sua assinatura e ajude-nos a manter viva esta tradição centenária!