Editorial: A Ponte Pedonal

Sobre ela já aqui se tinha falado, quer no plano noticioso, quer no opinativo. Mas disso não passou. Agora, abundantemente, dela se fala. Não criticamos o facto, antes louvamos que o assunto se comente e boas propostas apareçam. Mais vale falar com asneira de permeio do que nada dizer e deixar que o assunto caia no esquecimento e não tenha o melhor fim.

É importante salientar que a edificação de uma estrutura de envergadura, com pesados custos e forte visibilidade pública, obriga a muito estudo, profunda ponderação, debate alargado, audição suficiente e humildade que baste. O país tem “mastodontes” suficientes, nos mais diversos domínios, para que não sejamos razoavelmente cautelosos em cada obra que se faça, seja ela apenas para embelezar ou, sem deixar de ser bela, ser também de utilidade pública para os mais diversos fins.

Quem projeta e quem decide sobre uma marcante construção tem uma enorme responsabilidade às costas porque, mesmo sabendo que sempre haverá apoiantes e críticos, uma obra mal sucedida, já que será para servir gerações, quer no seu uso, quer para mero alindamento, dificilmente passará de um estorvo, alvo de críticas permanentes, com direito a entrar no “Anedotário Nacional”. E mesmo que se diga que em Portugal só se sabe criticar – e Viana não foge à regra – temos que reconhecer que, em muitas, a prática demonstra que, por vezes, há razões para tal.

Ainda estamos longe de decisões, porque, eventualmente, longe estará a construção da dita ponte pedonal, por mais que se reconheça a sua necessidade. Há, por isso, tempo para aprofundar ideias firmadas e em novas ideias pensar; fazer excelentes debates e amadurecer o assunto, para que se possa dizer que se temos mais uma obra, pouco ou muito conveniente em relação aos objetivos pretendidos, o mérito ou demérito cabe muito ou pouco a todos nós.

Aleixo de Queiroz Ribeiro (1868/1917), limiano, autor do Sagrado Coração de Jesus em Santa Luzia (esta também deu farta polémica, mas hoje amada), em 1900, depois de ter ganho um concurso para a construção de uma peça escultórica de homenagem ao Dr. Sousa Martins (1843/1897– médico e professor catedrático da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa), por pressão popular, viu a mesma ser demolida ao fim de poucos meses. Seguiu-se um trabalho do 3º concorrente ao concurso em que Aleixo foi vencedor, que ainda está no mesmo local (Campo dos Mártires da Pátria, frente à Faculdade de Ciências Médicas). Acontece que uma ponte não é uma escultura e só por acidente pode ser demolida. Mesmo intolerada, temos que conviver com ela.

GFM

Diretor do jornal A Aurora do Lima

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