Este Verão está a caminho do seu termo, tendo sido opção para que largos milhares de cidadãos tenham usufruído dos banhos em águas frescas nas diversas praias do litoral, ou fluviais do interior do país. Não fossem os fogos, que queimaram parte substancial da nossa floresta e de propriedades agrícolas, de Norte a Sul, e teríamos tido um ambiente estival semelhante ao que muitos procuram em praias tropicais da América Central ou em países asiáticos.
Curiosamente, o ambiente político manteve-se algo agitado, o que pode ser atribuído às ondas de calor que possam ter avariado os fusíveis de certos actores políticos, que não deixaram passar nada para se manterem no palco, assumindo-se como animadores de Verão. Neste particular é de salientar a perseguição, um tanto sádica, ao Ministro da Administração Interna (MAI), a que se juntaram órgãos de comunicação social, jornalistas, comentadores, políticos de diversos quadrantes e vários cidadãos, visando não só a sua demissão, como também comprometer o Primeiro-Ministro (PM) e o governo em geral. As redes sociais, de acesso fácil e aberto a todos os cidadãos, através, sobretudo, dos telemóveis, constituíram a porta escancarada para cada um entrar e vomitar os seus ódios e frustrações, através de linguagem brejeira, por meio de mensagens, monólogos, diálogos, comentários e até cantigas. Tudo de um nível tão rasteiro como nunca se assistiu.
A coberto de uma liberdade de expressão sem limites, que os Tribunais não punem sabe-se lá porquê, é possível lançar todos os anátemas contra cidadãos, especialmente os políticos por estarem mais expostos, para os grelhar em praça pública. Depois queixamo-nos que não temos políticos qualificados, e eu pergunto se, perante a perseguição de que são ou passam a ser alvos, haverá cidadãos sérios e honrados disponíveis para a actividade política. Só mesmo alguns apaixonados, com a política a correr-lhes no sangue, ou outros para poderem concretizar interesses próprios, é que seguirão essa via, o que deixa os destinos do país e dos cidadãos nas mãos de aprendizes e, eventualmente, de predadores.
Nas redes sociais, sobretudo no tik tok, o líder do partido político da extrema-direita não teve folgas neste Verão quente, aproveitando-se de dicas anónimas saídas de dentro da PJ – sem dúvida um ajuste de contas com o anterior director – que jornalistas que se dizem de investigação, mas que não passam de perseguidores, puseram a circular contra o actual MAI. Para esse líder político, o ataque contínuo ao ministro, enquanto outros descansavam, foi como que um prolongado acto de masturbação, que lhe permitiu um gozo extremo ao ocupar em quase cem por cento o espaço mediático numa crítica figadal ao governo para o fazer cair. Só que o PM não vai em pressões, preferindo aguardar as investigações, entretanto iniciadas, para tomar as decisões correctas no tempo certo. Creio que agiu com ponderação e firmeza, mostrando que não são os estranhos que decidem assuntos do governo.
Esse líder extremista não perdoa ao PM o facto de o PSD não ter feito um acordo com o seu partido para o governo do país, o que lhe teria aberto as portas do poder para fazer valer algumas das suas políticas. Simplesmente, perante actores políticos não confiáveis nem adultos, o PSD não poderia, nunca, ficar na sua dependência. Isto é claro como a água, mas jamais foi digerido pela outra parte, e daí esta animosidade crescente que culminou com o anúncio da apresentação de uma moção de censura ao governo, tendo como móbil o comportamento de um ministro antes de o ser, coisa rara neste país. Felizmente esta censura foi derrotada, sobretudo porque o PS é o fiel da balança e é um partido responsável, adulto e experiente, que não pretende ficar colado à extrema-direita nestas e outras perigosas aventuras. Não sou seguidor das redes sociais, mas não deixo de dar uma espreitadela pelas notícias e comentários, sobretudo de manhã e à noite. Fico perplexo com a linguagem brejeira e repugnante utilizada, com o tipo de ofensas contra os políticos, e não só, e também com o à vontade com que se produzem comentários ofensivos da honra e dignidade da pessoa humana, sobretudo de quem exerce cargos públicos, assim como de imagens absolutamente despudoradas e chocantes que, vistas com insistência por crianças e jovens, acabam por distorcer a sua personalidade e o seu desenvolvimento mental. É, sem dúvida, um cancro do nosso tempo que invadiu a sociedade e as famílias, tudo devendo ser feito pelo governo, entidades e educadores, para limitar ou mesmo impedir o acesso a tais conteúdos, por parte de adolescentes e jovens de menor idade.
NR: o autor não acompanha o novo acordo ortográfico