Caro amigo José Pinho,
Quis o destino que, numa hora maldita, sofresses um grave acidente que te atirou para uma cama, interrompendo a vivência calma que, justamente, usufruías, depois de anos de trabalho dedicado ao ensino da matemática aos jovens do nosso concelho. Na sequência deste inesperado episódio, acabaste de partir para a eternidade. Onde quer que a tua alma repouse, que seja em paz e em lugar melhor do que neste mundo.
Perdoa-me por não te ter visitado, mas o facto é que me faltou a coragem para aceitar o que foi o teu novo estado de vida. Prefiro recordar-te como aquele jovem bem-disposto, desde que nos conhecemos no Curso de Oficiais Milicianos na Escola de Infantaria, em Mafra, em que nós e outros colegas, geograficamente tão distantes da família, por ali permanecíamos nos fins de semana.
Lembro-me que no termo de três meses de instrução em que, em pleno mês de Dezembro, o nosso terceiro Pelotão iniciava as manhãs em tronco nu, desafiando o tempo gelado que nos ajudou a moldar o carácter e o físico para os desafios que haveríamos de enfrentar. Seguimos, depois, rumos diferentes. Fui para a Escola de Artilharia, em Vendas Novas, e dali segui todos os passos até embarcar para Angola. Tu, meu amigo, acabaste por ir para Moçambique. Mas, no final, regressámos vivos, homens feitos, perigos enfrentados, mais endurecidos e preparados para a realidade, e orgulhosos pela missão cumprida. É a experiência de vida que faz falta aos jovens de hoje!
A profissão que escolhi trouxe-me para Viana, já lá vão cinquenta e um anos. Muitas vezes perguntei por ti, pensando que trabalhavas nos Estaleiros Navais, visto teres tirado o curso de Engenharia, mas enganei-me. Afinal, eras professor de matemática.
Até que, no dia de uma sessão da Assembleia Municipal, em que participei de forma activa como deputado, realizada no Forte de S. Tiago da Barra, fui abordado por ti e pelo teu filho, então Presidente da JF de Carreço, e nos reencontrámos num abraço fraterno. Nunca mais tínhamos contactado desde aquele mês de Dezembro de 1965, em que fizemos o nosso Juramento de Bandeira, que cumprimos.
Após este reencontro, tivemos várias conversas sobre as nossas aventuras, o passado e o presente, a política, as festas regionais de que tanto gostavas, até que pela voz da tua esposa soube da triste notícia do teu acidente. E, muito recentemente, pelo sr. Director deste Jornal, fiquei a saber que já partiste, o que muito me entristeceu.
Quero que saibas, meu amigo Pinho, que te recordo com saudade e estou certo que a tua alma repousa em paz porque, enquanto estiveste entre nós, foste sempre um homem bom e amigo de todos. A verdadeira amizade e a saudade permanecem.
Porque sou católico e tenho a minha fé, estás presente nas minhas orações
Descansa em paz, meu amigo!
NR: O autor não acompanha o novo acordo ortográfico