Líder da Associação de futebol de Viana do Castelo desde 2004, Jorge Sárria garante que este é o momento “mais complicado”, que viveu. As decisões tomadas ainda no final da época passada ainda são contestadas e a nova época afigura-se “atípica”, mas o dirigente assegura que a prioridade é a “saúde”.
O campeonato da 1.ª divisão vai arrancar no dia 04 de outubro e contará com 18 equipas em competição. A não permissão de público nas bancadas será uma das grandes restrições para a época.
De momento, não há indicações para a realização de testes aos jogadores e aos dirigentes, contudo Jorge Sárria pede responsabilidade e admite que, caso surjam casos em algum clube, os jogos serão adiados.
Como está a ser preparada esta nova época?
O futebol, e a Associação de Futebol de Viana vive o seu momento mais atípico da sua história. Talvez o momento mais complicado, porque não sabemos exatamente o dia de amanhã. Vivemos o dia a dia, e com a esperança que as condições de saúde melhorem e permitam fazer aquilo que os clubes querem, que é praticar futebol.
Já há data de início do campeonato sénior?
Para já só há autorização pela DGS (Direção Geral de Saúde) da prática do futebol sénior. A formação ainda só pode fazer treinos condicionados. Nós, já há dois/três meses, quando se discutiu o alargamento do campeonato da primeira divisão, ficou indicada a data do primeiro fim de semana de outubro para o início das competições. Normalmente, eles começariam em setembro. Na reunião, que tivemos com os clubes, não sendo unânime a decisão, porque existem alguns que não estarão em condições de participar, mas a grande maioria já estava preparada para começar e mantivemos a data. E para já não existem casos conhecidos no distrito [nos clubes].
Quantas equipas vão participar na 1.ª divisão?
Vão jogar 18, as que tinham direito inscreveram-se todas. Não houve desistências.
E na 2.ª divisão?
Na 2.ª divisão termina hoje [22 de setembro] o prazo suplementar. Até às 18h, as equipas ainda se podem inscrever. Neste momento, estão 10 equipas.
É um número mais reduzido em relação a épocas anteriores?
Sim, é. Dado o alargamento que foi feito na 1.ª divisão, a 2.ª já teria menos equipas. Em princípio se fossem as mesmas equipas do ano passado só teríamos 14 equipas. Teremos menos quatro. Oficialmente, o Anais disse logo que sem o público, que é uma fonte de receitas para as despesas e houve outros clubes, não poderia competir. Houve outro, que não tem a ver com a pandemia, e que disse que não participaria. Neste caso, refiro-me ao Raianos. O clube não está em condições de participar com seniores.
E como se vai processar o campeonato. Os jogadores e equipa técnica vão ter de fazer testes?
Cada clube tem de apresentar o seu plano de contingência. Nós para facilitar, elaboramos um plano de contingência e enviámos para os clubes para eles adaptarem à realidade. Uma vez que grande parte dos campos são infraestruturas municipais, e estas têm o próprio plano, é natural que rapidamente os clubes consigam elaborar o seu plano de contingência. Nós vamos ter um acompanhamento direto com a Direção de Saúde e com as várias direções regionais, que nos irá comunicar sempre os casos ativos dos concelhos, que poderá obrigar a alterar/adiar jogos. Chegou-se a colocar a questão de efetuar testes, mas isso era um custo incomportável para os clubes da distrital. A Federação não pagava. A Associação não tinha condições para o fazer, tal como os clubes.
E quais as principais restrições?
A principal é não permitir o público. Mas há uma que também é importante que é a higienização e limpeza das infraestruturas. A principal é mesmo a falta de público. Quando se falou da falta de público nos escalões principais, lembro-me de ter dito ao presidente da Federação que este era um problema para os clubes profissionais, mas eles ainda vão recuperar algum dinheiro através dos patrocínios da TV. Mas para os campeonatos distritais e regionais, pode ser a morte. Porque os clubes contam com as receitas dos bilhetes e das vendas no bar para equilibrar as contas. Eu estou esperançado que esta medida ainda possa ser revertida durante a época, porque será terrível se tivermos de fazer toda a época sem público. Infelizmente estamos numa situação de que quem pratica futebol ou desporto é quem pode e não quem quer. Estamos a tentar arranjar forma de ajudar os clubes. Sei que as autarquias também estão a tentar ajudar. E os clubes também têm de encontrar alguma solução.
Há muitos clubes em dificuldades financeiras. De que forma a Associação está a minimizar este impacto?
Já existiam clubes com dificuldades, anteriores à pandemia. Quando acabamos a época e tivemos de tomar algumas decisões, porque não tínhamos campeões, com exceção de alguns campeonatos de futsal, mas tínhamos de indicar alguns clubes para militar nos campeonatos nacionais. Obviamente que a única solução era designar os clubes que iam em primeiro lugar. E essa foi uma medida que não foi muito bem aceite por alguns clubes. Nós decidimos em março e passado sete meses, estamos iguais ou piores e não havia maneira de terminar as competições. Este ano é uma época atípica, espero que seja a última. Espero que a próxima se possa iniciar normalmente. Há um receio de clubes que tenham suspendido a atividade que já não a retomem. Esperemos que não.
E, em termos financeiros, que apoios a Associação deu aos clubes?
Começava por distinguir dois tipos de apoio. A direção da Associação de Futebol tem subsidiado os clubes através do fornecimento de bolas, do pagamento total/ou parcial da arbitragem nos escalões de formação, através do pagamento de quilómetros nos torneios de futsal e futebol feminino. Essa verba chegou mais ao menos aos 50 mil euros. Este ano já demos cerca de 100 mil euros. Tivemos de estabelecer critérios, que foram em função do número de atletas que se inscreveram no ano passado. E também, outro critério foi em função da percentagem das competições que não acabaram.
Os 100 mil euros são verbas deste ano e atribuídos por quantos clubes?
Sim, são verbas deste ano e distribuídos pelos 56/57 clubes do futebol e do futsal. Para os 100 mil euros tivemos um apoio da Federação Portuguesa de Futebol, que nos ajudou a apoiar os clubes. Nessa verba também está incluída o desconto que foi feito na seguradora. Além disso, iremos dar mais 50 mil euros à semelhança de anos anteriores. Claro que gostaríamos de dar mais apoio.
Não há ainda datas para o início das competições de formação. Teme que isto possa afastar muitos jovens do futebol?
O prejuízo maior que temo é impedir os jovens de praticar desporto, mas claro, a prioridade é a saúde.
O que estão a fazer os clubes?
Neste momento, as normas da DGS só possibilitam os treinos formativos. Isto ainda é a norma 30, que os deixa treinar, mas quase sem bola. Para competição ainda não há autorização. Sei que a Federação está empenhada e está em conversações com a DGS. Uma grande parte dos atletas que temos são de formação. Acredito que todos os clubes estão a ser pressionados para iniciar os treinos regulares.
Nunca se viu numa situação semelhante?
Esta é a situação mais atípica e mais complexa que estou a ter. É um trabalho diário. Neste momento, temos de estar preparados e com a cabeça fria.
Que conselhos deixaria aos clubes?
Em primeiro lugar está a saúde. A nossa e a dos outros. Devemos cumprir as normas emanadas pela Direção Geral de Saúde. Como dizia um colega meu, o futebol é uma das coisas mais importantes das menos importantes. Pedia também uma certa calma e alguma paciência aos dirigentes dos clubes. Os clubes devem estar bem unidos e só no terreno de jogo é que cada um deve lutar pela vitória, mas na resolução dos problemas de todos devemos estar unidos. Devem lutar para não serem também eles os causadores do agravamento das condições do adversário.
C.M.R.
