A boa (má) notícia da semana: tradição já não é o que era

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Por esta altura abundam notícias sobre as festas da Senhora d’Agonia, sobretudo na imprensa local e nas redes sociais, mas a publicada no JN sobre a intenção do presidente da direção da Viana Festas apresentar uma queixa por tentativa de fraude nas inscrições no desfile da mordomia espantou-me. Não pela queixa em si, mas sim pelo motivo. O desfile da mordomia tal como o cortejo são manifestações da cultura popular, onde as tradições, os costumes e as próprias identidades representam o orgulho cultural de toda uma comunidade, que se materializa numa forte participação do povo. Sempre se tratou de uma participação espontânea e, mesmo quando houve necessidade de uma inscrição todos eram bem-vindos.

 No entanto, a partir do momento em que a inscrição passou a ser feita através de uma candidatura on-line, com limitação de vagas, a confusão instalou-se, pois, mesmo que limitar a participação seja uma tarefa difícil, a questão que se coloca é até que ponto o recurso ao digital pode ser considerado justo. Por um lado, há os que, por falta de internet ou literacia digital, ficam logo à partida excluídos, assim como todos os outros que, por motivos vários, não poderem aceder à internet no preciso momento em que abrem as candidaturas, não o poderão fazer mais tarde, porque as vagas esgotam-se num ápice. Por outro lado, qualquer pessoa que tenha acesso à internet, mesmo de qualquer parte do país, pode fazer a candidatura. 

E não me parece que a indicação da morada seja um critério válido, tanto mais que é facilmente contornável. Também não me parece que criar um novo desfile, supostamente para substituir o quadro do arraial que desapareceu da candidatura, seja a melhor estratégia para limitar a “corrida” à participação, pois, quanto a mim, o arraial é a própria festa e faz parte da tradição, pelo que deveria estar representado no cortejo. 

Longe vai o tempo em que era difícil encontrar pessoas, sobretudo jovens, dispostos a participar nestas manifestações populares, principalmente nos “pós” 25 de Abril, altura em que o país se abriu ao mundo e, na tentativa de se modernizar, foi deixando cair algumas tradições. Mas como a sociedade está em constante mudança, as tradições viraram moda e tudo que é moda mobiliza as “massas” que, em determinadas situações, levam à desordem. Não admira, portanto, que haja tentativas de fraude, mas ao invés de uma queixa que, com certeza não vai ter consequências, melhor será que seja encontrada uma estratégia satisfatória para todos, e que a festa da Senhora d’Agonia não deixe de ser a maior romaria de Portugal.

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