“Alegações finais” –  66, Sara Kali: de quem se trata (I) 

“Alegações finais” –  66, Sara Kali: de quem se trata (I) 

Mui provavelmente, a grande maioria das pessoas, inclusivé dos meus leitores, jamais teria ouvido falar neste nome: Sara, Sara Kali. A propósito, eu tenho de lembrar que muitas instituições, a que pertencemos ou nos cercam por aí, praticam o estratagema do segredo misterioso e aplicam, sem escrúpulos, a censura quanto à propagação de ideias, factos ou nomes de pessoas cuja existência lhes causa arrepios e medos. Não sejamos hipócritas. Se as práticas acima descritas lhes trazem segurança, conforto, dinheiro e até honrarias, por que razão essas pessoas hão-de procurar incómodos, chatices, pobreza, confusão e desonra? Não vamos, agora, desvendar tais instituições ou pessoas, mas, como sempre ouvi dizer, este mundo é dos videirinhos, ou seja, daqueles que almejam posições altaneiras, muito poder e mais ainda dinheiro em relação ao comum das pessoas humildes que, acima de tudo, procuram a verdade, para dar descanso à sua consciência e luz às suas dúvidas e inquietações.

Há uns meses atrás, em dezembro de 2025, completaram-se oito décadas sobre a descoberta casual (ou terá sido a mão de Deus?) de uma peça de barro, tipo um cântaro chamemos-lhe assim, mas selado, onde se encontravam cerca de 50 manuscritos, cuja grafia o achador não conseguia perceber, nem ler. E quem encontrou tal peça? Um agricultor egípcio que, no deserto desse país, mas próximo do Rio Nilo, cavava a terra para recolher uma substância usada na fertilização das pobres terras agrícolas. Entregues tais achados (o “cântaro de barro” e os documentos manuscritos) a quem tinha conhecimentos bastantes para a sua rigorosa decifração, essa surpreendente descoberta causou grande alegria e enorme fascínio aos historiadores e arqueólogos e a todos os intelectuais académicos de várias universidades por todo o mundo, sobretudo ocidental. A única instituição que teria engolido em seco (perdoem-me o plebeísmo) foi a Igreja Católica, que, no concílio de Niceia, do ano 325 d.C. – início do século IV – sob a presidência do Imperador romano Constantino (convertido que foi ao Cristianismo), decidiu escolher os livros ou códices (uma grande parte do Antigo Testamento, os Quatro Evangelhos, Cartas Apostólicas, Atos dos Apóstolos, Apocalipse) sendo que estes foram considerados verdadeiros e todos os demais foram crismados de apócrifos ou falsos e, em consequência disso, mandados destruir, sob a pena canónica de heresia caso tais decisões não fossem rigorosamente cumpridas. 

Há quem sustente que, historicamente, não teria havido, nesse dito concílio, qualquer debate ou decisão sobre tais documentos, mas que os mesmos códices, versando sobretudo a gnose ou gnosticismo (= conhecimento secreto) foram gradualmente desaparecendo das igrejas locais mais importantes. Em conclusão, que esses documentos tinham desparecido, isso é real. Portanto, a Igreja Católica continuou a usar o ardil do mistério silenciado em relação à generalidade dos seus fiéis (na ordem de um bilião e tal de crentes, em meados do século XX) e deixou correr o tempo, bem longo, como se nada fosse com essa instituição religiosa. O mesmo comportamento tinha sido usado com a descoberta, no século XIX mas espaçadamente, de vários manuscritos, o mais famoso dos quais é o chamado Códice de Berlim, o qual foi comprado no Egipto em 1896 e “passou a integrar a coleção de papiros de Berlim” onde está arquivado. O seu interesse é enorme porque contém textos que não fazem parte da Bíblia Canónica, tais como: Evangelho de Maria (Madalena), Apócrifo de João, Sabedoria de Jesus Cristo, Atos de Pedro, entre outros.

O mais intragável disto tudo é que a Igreja Católica considera, nuns casos restritos, que esses documentos (mandados destruir) são verdadeiros, mas na maioria dos casos são tidos como falsos e perigosos e heréticos. Um exemplo comezinho entre muitos importantes: a 26 de julho de cada ano, a Igreja Católica celebra a festa de São Joaquim e de Santa Ana, considerados os pais de Maria (Miriam), ou seja, os avós maternos de Jesus. Os meus caros leitores podem procurar em tudo que seja um santo livro, um livro ou manuscrito canónico, com a chancela bispal de “nada obsta” e “imprima-se”, que vos garanto não encontrareis em lado algum os nomes desses familiares de Jesus. Mas, por outro lado, apenas descobrireis essas referências nos evangelhos ou manuscritos ditos apócrifos. O pessoal católico do vale do Neiva, na zona das freguesias de Balugães e Durrães, ou de Barroselas e Carvoeiro nunca perdem a festa em honra de Santa Ana ou não fosse ela a padroeira das parturientes. Como os tradicionalistas de Carvoeiro parece desconhecerem qual a útil benfeitoria do São Joaquim (cuja festa é no mesmo dia da festa de sua mulher) pura e simplesmente o removeram, na prática, da lista longuíssima dos santos e santas.

E sobre Sara? Quem seria esta pessoa, que também não consta dos livros canónicos ou verdadeiros (na opinião dogmática da Igreja Católica)? Pior! Nem sequer consta dos manuscritos ou códices apócrifos ou falsos encontrados ao fim de quase dois mil anos. Imaginem! Benzam-se com as duas mãos. Sara, ou Sara Kali (= a negra) é considerada, na tradição oral dos ciganos (ou romani) nada mais nada menos que a bisneta paterna do São Joaquim e de Santa Ana e a sua festa anual (não eclesial) é comemorada pelos Ciganos/Romani nos dias 24 e 25 de maio. E onde acontece isso? Veremos nas próximas crónicas. 

(NOTA IMPORTANTE: não me move qualquer propósito de proselitismo (ou seja, um esforço ativo para conversão ou desconversão de outras pessoas a uma religião, ideologia ou doutrina. Mas que estas matérias são curiosas …. lá isso são!)

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