Mil dias se passaram. Mil histórias se contaram. A oportunidade apareceu e, uns bons anos depois, queria voltar a sentir o desafio físico e espiritual do Caminho.
Assim comecei a jornada até Santiago de Compostela, desde a minha bela e adormecida Viana do Castelo, indo pela rota dos caminhos da Costa.
Eram 5 da manhã e talvez eu fosse o único a vaguear as ruas da cidade, com as olhos meios turvos a querer encontrar as setas amarelas que nos guiam. Para quem não sabe, estas setas não são só uma coisa bonita, são elemento que nos conecta todo o caminho e nos faz sentir na direção certa.
O plano era simples: ir no flow e deixar entrar de leve e sem licença, o que o caminho nos trás. Só tenho mesmo um desejo para estes dias: ir buscar a credencial de peregrino e entregar ao meu pai. Se hoje posso fazer estas aventuras, em grande medida se deve a ele – aposto que me vai receber com o seu sorriso meigo e, lá no fundindo, mesmo sem o dizer em voz alta, vou ouvir um “obrigado filho”, vindo diretamente da sua alma boa e que fez mudar o meu mundo por completo, nos últimos anos.
E assim, de repente, estávamos em Caminha. Hora de cruzar a fronteira. Mas não antes um encontro com a minha mãe, que fez questão de me ir dar um último abraço. A nossa família é o nosso tesouro e eu eu adoro vivê-la de perto.
Já por terras espanholas, dávamos de caras com o nosso destino, A Guarda. Foram 35km e umas boas horas a marcar passo. “Que belo empeno” disse eu à chegada do Albergue de peregrinos. Mas estava feliz. Muito!
Que bela cidadezinha piscatória, meus amigos: o porto que abriga os barcos e onde se instala um cenário de faina, dá as boas-vindas a uma paisagem de coloridas casas e casinhas ao longo da encosta, ladeada por um verdejante monte de Santa Tecla. Tudo isto, a ser acompanhado por um azul cristalino da baía. Um verdadeiro postal veneziano.
Entretanto aconteceu Caminho e eu conheci pessoas fantásticas. Foi fácil aceitar ter perdido o jantar, pois assisti a um pôr do sol indescritível – a magia e dádiva da natureza, misturada com uma conversa meiga e divertida. Só faltou o Rosé, para dar aquele toque de fim de tarde de verão em cheio…
Do nada veio a noite cerrada e era melhor subir aos aposentos (nada Reais, mas muito bem estimados).
Ainda houve tempo para uma última conversa, acompanhada por uma Estrella Galicia e umas tapas, regalia que por estas bandas se oferece e que eu tanto aprecio.
Hora de dormir e pensar na jornada seguinte.
Tem tudo para ser mais um dia épico!
Buen Camiño!
José Martins