Se o leitor ainda não foi ver, vá, porque lá voltará. Eu não sei se terei tempo, mas faço questão de ver mais vezes.
Se não sabe o que era a imprensa no tempo do Estado Novo, com os dramas da censura, onde nada era publicado sem passar pelo exame prévio, sempre com cortes feitos pelo famigerado lápis azul; se desconhece que todos temiam todos, onde cada um tentava segurar o emprego, mas onde havia gente destemida, que era castigada com trabalhos menores; se não sabe que o diretor, regra geral, dependia em absoluto da entidade patronal e esta dependia dos favores do Governo, porque o que mais queria era governar a vidinha; se desconhece que o chefe de redação, regra geral, vivia em desespero: para aturar um diretor exigente – porque temia a Administração – ,para tocar ao coração do coronel da censura, para que os cortes fossem menores, para gerir a rapaziada da oficina da impressão, normalmente gente predisposta à luta; se não sabe, e gosta de ver bom teatro, com atores empenhados e perfeitos no desempenho da sua função, então não deixe de ver.
Esta primeira obra dramática de Saramago retrata a noite de 24 para 25 de Abril de 1974, a noite da revolução, na redação do então Diário de Notícias, em que nada ainda era certo e o medo tolhia decisões sobre a saída ou não da notícia fundamental, que era a existência de uma revolução na sociedade portuguesa. Mas, depois de luta renhida, também num dos mais conhecidos jornais portugueses, a revolução triunfaria.
Vá ver, caro leitor. E se gostou do 25 de Abril, não tenha medo de deixar correr algumas lágrimas pelo rosto. Afinal era ali que se punha fim ao medo. l
GFM