Como é sabido, as escolhas dos portugueses/as na primeira volta das eleições presidenciais fixaram-se em dois candidatos: António José Seguro e André Ventura. A candidata e candidatos de esquerda Catarina Martins, António Filipe e Jorge Pinto, assim como os responsáveis do PS, do PCP, do BE e do Livre, não obstante as críticas na primeira volta a António José Seguro, não tiveram qualquer hesitação em declarar e recomendar a votação neste candidato na segunda volta. Num segundo momento, diversos (ex)responsáveis e figuras do PSD, da IL e do CDS têm vindo a declarar o seu voto em Seguro, considerando as entorses, as inconsistências e até ameaças à democracia representativa, por parte de Ventura, perante o figurino constitucional dos poderes do Presidente da República. O que já é difícil de entender é que, dadas tais ameaças, Luís Montenegro como Primeiro Ministro, perante este dilema, normalize o Chega e não se defina por razões calculistas e táticas, nomeadamente a de necessitar do Chega para alguns projetos-lei no quadro parlamentar como, por exemplo, a contrarreforma do pacote laboral, tal como sucedeu com as leis sobre a imigração e a nacionalidade.
Em recente entrevista feita a Ventura a 21/1/2026, este, questionado sobre o seu posicionamento face a posturas de violência racista contra muçulmanos por parte do grupo neonazi 1143 – em que teriam estado implicados alguns membros do Chega – não se demarcou. O cientista político Riccardo Marchi – que em livro seu intitulado “A Nova Direita Anti-Sistema – O Caso do Chega” normalizou e legitimou o Chega como partido radical de direita ‘anti-sistema’ mas não racista, não xenófobo nem de extrema direita –, considerou acertada a posição de Ventura por, no quadro das atuais eleições presidenciais, não prescindir deste e doutros grupos neonazis pela sua relevância nas redes sociais. O alinhamento do Chega e do seu chefe Ventura com a ideologia autoritária de extrema direita perpassada de elementos protofascizantes poder-se-á ainda inferir: a) da adesão a slogans demagógicos e ‘messiânicos’ em torno de ‘Deus, Pátria e Família’ e posicionamentos racistas e xenófobos, expostos nomeadamente em cartazes; b) de propostas mistificadoras de proibição do chamado “marxismo cultural” nas escolas, de ataques antifeministas em torno da chamada ‘ideologia de género’ e outras propostas limitativas de liberdades para pessoas LGBTQI+; c) de hostilidade ao multiculturalismo, em particular a grupos étnico-raciais minoritários e crentes não cristãos, de imposição de assimilação forçada, de confinamento e criminalização de comunidades ciganas e ‘imigrantes’ classificados amiúde como ‘incumpridores’ da lei e ‘parasitários’ do ‘Estado Social’; e sobretudo d) da integração do Chega na família política da extrema direita e/ou partidos neofascizantes na Europa e no mundo (vg. Vox na Espanha, Liga Italiana, Rassemblement National francês, Partido pela Liberdade/Partij voor de Vrijheid holandês e outros no norte de Europa e em Visegrado, Trump e Bolsonaro).
As sondagens dão vantagem a António José Seguro. Porém, tendo consciência da porosidade de preconceitos étnico-raciais enraizados e clivagens interétnicas nomeadamente face a ciganos e imigrantes – aliás não valorizadas ou até desconsideradas por vários partidos, inclusive de esquerda – mas constatados em diversos estudos nacionais (vg. Os novos racismos por J. Vala et al. em 1999 e Etnicidade e Racismo por M.C. Silva em 2022), estamos nesta curva histórica com uma excepcional premência a nível (inter)nacional mesmo em relação às eleições presidenciais de 1986. Independentemente das diferenças ideológicas no campo democrático, mobilizar-se e votar em António José Seguro no próximo dia 8 de Fevereiro é um ato de defesa da democracia como uma das precondições mínimas para novas lutas e conquistas socioeconómicas e políticas!
Manuel Carlos Silva