Os ciclos de desenvolvimento das sociedades remontam aos tempos bíblicos. Desses tempos, chegam-nos expressões como “vacas gordas/vacas magras” para designar períodos de abundância/períodos de austeridade. E sucedendo uns aos outros, como as marés e as ondas, os economistas estudam os ciclos económicos como os oceanógrafos explicam o movimento das águas dos oceanos.
A onda de aparente abundância, assente no endividamento do Estado, das empresas e das famílias e favorecida por políticas de crédito fácil, desfez-se com a crise de 2008/2011. Entre nós, a esta onda seguiu-se a austeridade que foi moderada, após a saída da “troika”, graças ao programa do Banco Central Europeu (BCE) de compra maciça de dívida pública e descida das taxas de juro.
Como se previa, desta política monetária expansionista resultou o reaparecimento da inflação que, agravada pelas consequências da guerra na Ucrânia, pode tornar-se galopante e descontrolada.
Por isso, o BCE acaba de anunciar o fim do programa da compra de dívida pública e a subida gradual das taxas de juros, assumindo a impossibilidade de evitar um novo período de austeridade, que esperemos não seja longo, nem tenha efeitos muito nefastos na economia portuguesa, uma das mais endividadas e das que mais beneficiou da política expansionista daquele banco.
Embora negada, a austeridade já andava por aí, afetando os detentores de reduzidos recursos e, também, a classe média. Agora, alterada a política monetária da zona euro, espera-se do Governo a maestria adequada para impedir que, sobre nós, se abata austeridade ainda maior do que a que foi amaldiçoada pelo partido que o suporta.
Se bem o fizer, estaremos, de verdade, a começar a “virar a página” da austeridade!