O que eu andei pr´aqui chegar

O que eu andei pr´aqui chegar

Mais um ano se passou. O mesmo rio sereno e manso, as mesmas margens amenas e bem cuidadas, as mesmas copas verdes, talvez mais altas, dos enormes e frondosos plátanos, o mesmo passeio matinal e ao fim da tarde, rio acima e rio abaixo, namorando as águas que nunca são as mesmas. Quantas águas por aqui passaram e se tornaram águas de mar! Tantas quantas as memórias me fazem recordar. Sento-me na margem, fecho os olhos e percorro o rio da saudade, com um leve sorriso nos lábios ou alguma lágrima no canto dos olhos. O pensamento voa até aos anos que passaram, mais alto ou mais baixo, mais longe ou mais perto, como voam os patos bravos que por ali vivem. 

A manhã estava linda, inundada de sol radioso. Seguia eu pelo passeio empedrado da margem esquerda, salpicada por uns chuviscos que a brisa leve trazia do géiser implantado no meio do rio, quando repentinamente sai do beiral do balneário termal um bando de aves pequeninas, voando que nem flechas direitas à minha cabeça, rasando-me o cabelo. Assustei-me, tentando afastar-me daquele ataque súbito e inesperado. Presenciando a cena, o homem das obras riu-se e serenou-me, dizendo que eram andorinhas que estavam a nidificar no beiral e se assustaram com a presença de alguém desconhecido. Compreendi que tentaram defender-se, atacando-me. Se não fosse verdade eu não acreditaria. E logo andorinhas, as nervosas mas pacíficas avezinhas da minha infância! Que pena, respondi eu, gosto tanto de andorinhas. Quem me dera ser andorinha. Sorrimos.

No rotineiro passeio da tarde decidi fazer o mesmo percurso, voltando sem medo ao mesmo sítio, esperando a mesma reação das andorinhas. Mas nada aconteceu. Compreenderam que eu trazia comigo a paz e não a guerra. Ou então… ouviram o que eu disse ao homem das obras. 

Sentei-me ali num dos muitos banquinhos virados para o rio, em silêncio, a ver as águas que não eram as mesmas e a pensar nas muitas que por ali passaram e no que eu andei pr’aqui chegar.

 

Eva Cruz

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