Os cidadãos residentes no país debatem-se, desde há muitos anos, com dificuldades no acesso aos cuidados de saúde, um sector sempre em crise, por os políticos olharem muitas vezes para esta matéria, não como um bem geral estruturante, mas como um modelo ideológico de gestão que se insere nas opções políticas de quem governa. E como a gestão governativa muda de mãos de quando em vez, acontece que a política de saúde sofre graves oscilações que trazem sofrimento às pessoas.
O Serviço Nacional de Saúde (SNS) foi criado em 1979 e é um dos maiores bens conquistados com o 25 de Abril de 1974, concretizando um direito importantíssimo previsto na Constituição da República. Foi sendo aperfeiçoado ao longo dos anos e chegou-se à conclusão de que, para uma melhor resposta às necessidades das pessoas, seria aconselhável adoptar o modelo das Parcerias Público-Privadas (PPP), considerando a existência no país de várias unidades hospitalares do sector privado, que muito poderiam contribuir para a melhoria da prestação dos cuidados de saúde. O Hospital de Braga foi uma das unidades que funcionou nesse regime, quase na perfeição, e o Hospital de Loures seguiu o mesmo exemplo, assim como outros mais no país.
O acesso à saúde funcionava sem grandes constrangimentos e não se via a degradante situação de pessoas terem de passar noites inteiras nos hospitais à espera de serem atendidas nas urgências, nem tão pouco nos centros de saúde, para os casos menos graves.
As urgências, sempre com demoras já se sabe, nunca, no entanto, atingiram o ponto de degradação a que hoje se assiste. São ambulâncias em fila de espera para poderem entregar os doentes; são montes de pessoas aguardando horas a fio para serem atendidas; são macas acumuladas nos corredores das urgências com os doentes em desespero; é a falta de médicos de especialidades diversas e de pessoal de enfermagem; é a transferência de doentes entre hospitais, por falta de especialistas; é o fecho de camas para receber doentes; é a demissão de pessoal médico; é o excesso de horas de trabalho sem que lhes corresponda uma remuneração justa e atractiva; é, enfim, um mundo de problemas absolutamente desesperante para quem está doente e necessita de assistência médica.
O governo da geringonça, com a presença de uma esquerda extremista que endeusa o Estado e despreza os privados, terminou com as PPP e foi o grande culpado da degradante situação actual, porque o sistema funcionava razoavelmente bem e nunca se viram situações tão humilhantes para os cidadãos como as que vêm acontecendo. Lamentavelmente, o governo socialista está surdo e não só não aceita recuar nesta situação, isto é, adoptar novamente as PPP, reconhecendo o erro em que caiu e o mal que causa aos utentes, como vem comprando outros graves conflitos com o pessoal médico, de enfermagem e técnico de saúde, entrando-se numa situação de quase ruptura.
Reitero que os partidos de esquerda, com o PS à cabeça, são os grandes causadores destes graves problemas que se vivem no sector, porque acabaram com um sistema que era eficiente. Justificaram-se com o facto de que ficava muito caro ao país, sem deixarem de esconder uma espécie de ódio ao sector privado da saúde. Contudo, o que actualmente, se verifica é que o SNS fica muito mais dispendioso aos contribuintes e os resultados são muito piores. Quem não vê isto?
O governo actual decidiu criar uma nova estrutura para o SNS, introduzindo, ao que se afirma, mudanças radicais na forma de o administrar e implementar no país. Trata-se de uma estrutura executiva que, segundo pude ouvir nas notícias, recentemente, terá um quadro de pessoal de trezentas pessoas. Pergunta-se quanto custará ao erário público este batalhão de gente, que teria de ser toda especializada e remunerada em conformidade. Façamos as contas por alto. Se a média geral entre salários altos (administração e outros altos responsáveis) e médios for, por exemplo, de cinco mil euros, no espaço de um mês o SNS gasta um milhão e quinhentos mil euros. Se multiplicarmos esse valor por catorze meses, só em vencimentos seriam vinte e um milhões de euros! Bem, se ao menos houver uma eliminação radical dos graves constrangimentos que hoje acontecem, nada a opor. O problema é se tudo continua como dantes ou pior, assegurando empregos para os boys, sem experiência e competência técnica. Mas isso é o que se verá a partir do início do próximo ano.
No território vianense, ao que parece não são demasiados os problemas nos Centros de Saúde, se bem que nas urgências do hospital existam demoras prolongadas, o que não foge à regra dos outros hospitais espalhados pelo país. Queria salientar, no entanto, que o Centro de Saúde Gil Eanes, que conheço e ao qual pertenço, merece uma palavra pública de louvor pela forma carinhosa e atempada como os utentes são tratados, com um corpo médico, de enfermagem e de atendimento extremamente humanista e profissional. Pela parte que me diz respeito, só posso desejar que o novo SNS, com as alterações que se anunciam, não venha estragar aquilo que funciona bem, como é este caso.
Para finalizar, diria que os cidadãos têm de ter coragem para operar as mudanças políticas, escolhendo quem lhes dê garantias de seriedade, mas isso só se consegue através dos votos em eleições. Pelo que devem ficar atentos aos programas dos partidos e aos candidatos, punindo aqueles que mentem e que apenas se alimentam da demagogia.
N.R.: O autor não aconpanha
o novo acordo ortográfico.