Palavras, palavras e mais palavras

Palavras, palavras e mais palavras

Somos feitos de palavras.  Elas são o nosso limite e também o nosso descomedimento. Com elas nos exprimimos, atrás delas nos escondemos. Alguém disse um dia estas palavras que retive para sempre “As palavras são mentira reveladora, verdade tímida, meia verdade. Carregam a nossa impotência e embriagam-nos com o seu poder”.  Será mesmo assim? Não sei, só sei que elas são poderosas. Há aliás a velha máxima que nos diz que “palavras proferidas jamais serão esquecidas” e, se forem escritas, será bem pior pois as outras, podem ser levadas pelo vento! 

Sabemos bem que a língua portuguesa contem um enorme universo de palavras. Elas são o nosso património, tão rico quanto tão vasto. Se analisarmos bem o nosso discurso enquanto falantes, saberemos que utilizamos apenas uma pequeníssima porção da vasta panóplia de palavras que constitui a nossa riqueza cultural ao alcance apenas do nosso desejo.  Esta economia das palavras acontece por inação, por fracos hábitos dedicados à leitura, pela falta de curiosidade, pela noção de que sabemos o suficiente. Ficamos, deste modo, falantes arredados e desconhecedores deste grande potencial – a diversidade da nossa língua e os seus avanços – pois uma língua viva é assim mesmo. E a nossa dá provas de grande dinamismo! 

Estar mais atento, mesmo com o recurso ao mundo digital, pode permitir-nos alargar o universo de palavras. Quantas mais palavras conhecermos, melhor poderemos expressar as nossas ideias, melhor poderemos interpretar as ideias dos outros e conhecermo-nos melhor também. Centremo-nos no vocábulo “palavra “e, em seu torno, convido-os a divagar um pouco. Às vezes, falta-nos a palavra certa para expressar o que queremos, mas o que sabemos é que há palavras fortes e marcantes que determinam destinos: o “sim” na união matrimonial e “culpado” ou “inocente” num veredito final de um julgamento. Se, como antes referi, “palavras levam-nas o vento” já a palavra de honra era, em tempos passados, um vínculo para sempre. 

Há pessoas que têm o dom da palavra e, em três palavras dizem tudo e outras que, sem esse dom, usam e abusam das palavras que nos levam ao desespero. Há mesmo os que, usando as palavras certas, no momento certo, nos enrolam de forma eficaz. Quantas vezes ficamos sem palavras perante uma situação absurda? E, se para bom entendedor, meia palavra basta, mil palavras não chegam para justificar o que consideramos injustificável. Sabemos que há palavras com sentido figurado o que complica a interpretação, mas dão seguramente beleza à mensagem. 

Há palavras que já entraram em desuso e outras que foram criadas, acrescentadas, mas não saberemos da sua existência se a curiosidade não for o nosso forte. Passar a palavra pode ser, muitas vezes, uma forma de nos esquivarmos, dando a palavra a quem tem o dom da palavra. Dar a palavra aos outros e não monopolizar o discurso é algo generoso e sensato quando estamos a partilhar ideias. As palavras soltas podem não ter sentido quando descontextualizadas, mas mesmo soltas podem constituir um belo poema. Já agora, quem já não pediu a alguém para dar uma palavrinha, de forma a interceder num assunto? 

De uma palavra amiga estamos todos à espera em tempos difíceis. Estas mimam, abraçam e aconchegam, em contraste com aquelas que se assemelham a pedras que ferem, magoam, insultam, lançam a mentira e a confusão. Termino com um poema de Alexandre O’Neill sobre palavras – o mote desta minha mensagem – lançando um desafio aos leitores deste jornal. Neste despontar da Primavera sempre deslumbrante, motivar a família e os amigos para tentarem, todos os dias, acrescentar novas palavras ao vosso léxico.

Irão descobrir tantas palavras que podem substituir às habituais e tomarão, desta forma, conhecimento de que muitas mais foram já criadas, sem darem por isso.  Acreditem: irão ter muitas, muitas surpresas!

Há palavras que nos beijam

Como se tivessem boca.

Palavras de amor, de esperança,

De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas

Quando a noite perde o rosto;

Palavras que se recusam

Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas

Entre palavras sem cor,

Esperadas inesperadas

Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama

Letra a letra revelado

No mármore distraído

No papel abandonado)

Palavras que nos transportam

Aonde a noite é mais forte,

Ao silêncio dos amantes

Abraçados contra a morte.

Alexandre O’Neill, in “No Reino da Dinamarca”

Arcelina Santiago

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