Que o Povo os perdoe (II)

Que o Povo os perdoe (II)

Nestes dois últimos anos (2024 e 2025) foram comemoradas várias datas do meio século, mas, neste ano de 2026, há que registar também as datas de 2 de abril de 1976 (aprovação da primeira Constituição Democrática Portuguesa) e, após esta data, as  eleições, por voto secreto e universal, para os vários órgãos de soberania ou seja (por ordem de realização): para a Assembleia da República (em 25 de abril de 1976), tendo sido o PS o mais votado, o qual formou o I Governo Constitucional; para a Presidência da República, em 27 de junho de 1976, ganhas pelo General António Ramalho Eanes; para as Assembleias Regionais (ou Assembleias Legislativas) das Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores, também no mesmo dia 27 de junho; finalmente, para as autarquias locais, no dia 12 de dezembro de 1976 (ganhas, no concelho e distrito de Viana do Castelo, pelo PPD/PSD).

Com toda esta avalancha de atos eleitorais, os portugueses (principalmente os mais conscientes no aspeto político) passaram um período particularmente enervante e ansioso. Apesar da constituição em pleno de um estado democrático, o que deveria trazer paz e tranquilidade aos partidos e aos novos políticos, isso não aconteceu verdadeiramente. O ânimo da extrema-esquerda ficou desconchavado (= desconjuntado), após a derrota do “25 de Novembro”, mesmo tendo em conta neste caso que a intervenção do Grupo dos Nove e da coragem do Ramalho Eanes e do Jaime Neves e seus valentes militares não ter constituído, quanto às ameaças de confronto armado, pouco mais que mera camaradagem de antigos combatentes e ex-colegas da Academia Militar. Felizmente!

Voltando aos partidos e movimentos extremistas, de esquerda e direita, de há meio século atrás. O MDLP (Movimento Democrático de Libertação de Portugal) foi uma organização considerada nacionalista e terrorista a quem foram atribuídos três assassinatos: o Padre Max, a sua namorada Maria de Lurdes, ambos da UDP e, também, o de Rosinda Teixeira, uma operária de Santo Tirso. A realidade é que tais assassinatos nunca foram provados judicialmente. Por outro lado, o mesmo aconteceu com Joaquim Ferreira Torres, considerado fundador do MDLP, o qual foi assassinado em 1979. Este caso, embora muito falado, nunca foi esclarecido. O tal político assassinado na estrada Paços de Ferreira/Paredes era irmão do Avelino Ferreira Torres (este do CDS/PP), o qual presidiu à Câmara Municipal de Marco de Canavezes durante duas décadas. 

É oportuno lembrar que o MDLP foi fundado, entre outros, por dois membros da família coimbrã Pacheco de Amorim: o Fernando, nascido em 1920 na dita cidade de Coimbra, que, além de professor universitário e publicista, era um monárquico integralista ou integracionista (integração total das colónias africanas na pátria portuguesa, deixando, portanto, de serem colónias), ideia ferrenha que o levou a encabeçar com outros mais (capitão Fernando Queiroga o mais conhecido) uma revolta partida do Porto e colapsada na Mealhada (1946), ato que o conduziu à justiça de Salazar e a dois anos de prisão no forte de Peniche; o Diogo Pacheco de Amorim é bem conhecido por ser fundador, ideólogo e deputado do Partido Chega, da extrema-direita atual.

Finalmente, na extrema-esquerda, resta lembrar a existência, desde inícios de 1980 até 1987, das autodenominadas “FP 25 de Abril” (Forças Populares 25 de Abril) a quem são atribuídos vários atos terroristas: atentados e assassinatos (17 mortos, incluindo a morte acidental de um bebé de 4 meses, Sérgio Vieira, em 1984), e mais de 70 feridos; assaltos armados e atentados bombistas; confrontos armados durante operações policiais. A atividade criminosa desenrolou-se entre 1980 e 1987. Desta vez houve investigação policial, julgamentos, condenações à prisão, mas, passados alguns anos (nos anos 90), ocorreram as célebres e discutidíssimas amnistias parlamentares, após um acordo formal entre o Mário Soares (PS) e o Álvaro Cunhal (PCP). O Coronel Otelo era a figura proeminente das ditas forças populares, mas sempre negou a participação em qualquer ato de violência armada. É um assunto tristemente importantíssimo, a tratar lá mais para diante

(Tenciono, por agora, suspender a narrativa sobre os primeiros anos da revolução do “25 de Abril” de 1974, mas, no final deste ano de 2026, será oportuno falar sobre as primeiras eleições autárquicas (12 de dezembro de 1976) e a respetiva tomada de posse, em janeiro de 1977, dos primeiros e legítimos órgãos do poder local)

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