Abundância completa centenário depois de ter “muitas vidas”

Abundância da Conceição Ramos completou ontem, 13 de fevereiro, um século. Natural da freguesia de Outeiro reside, atualmente, na freguesia vizinha de Perre, na casa de uma filha.

“Trabalhei muito”, diz a centenária, que começou a “pastar o gado” com 13 anos. Antes esteve internada, “muito tempo”, no Hospital por uma doença, que se manifestava em feridas na perna esquerda.

Filha de mãe solteira conheceu o marido na escola. “Eu conheci-o muito novinho e eu já gostava dele, ele é que não sabia”, diz, sorridente, Abundância. O marido, Agostinho Martins Domingues é quatro anos mais novo. “Gostei dele, porque era muito trabalhador”, acrescenta. “Eu não disse a ninguém que gostava dele, porque senão podiam-mo tirar”, explica. Adiantando que “já estava casada e ainda queriam tirar-mo”.

Depois de algum tempo de namoro deu-se o casamento no dia 28 de outubro de 1945. “Foi um dia de inverno, com muita chuva e mau tempo”, revela Abundância, que casou já com 27 anos. Desta união resultaram nove filhos (três raparigas e seis rapazes), tendo um acabado por falecer aos quatro meses.

“Não me custou nada criar os filhos, porque eu gostava muito de meninos, queria que fossem sempre meninos”, diz, emocionada, Abundância. O marido manifesta que “custou muito criar os filhos. Ela diz que não custou porque gostava de cuidar das crianças, mas foram tempos muito difíceis”.

Abundância dedicava-se a cuidar dos filhos, dos animais e das terras, e Agostinho exerceu a profissão de carpinteiro, tendo trabalhado por conta de outrem e, mais tarde, por conta própria. “Fiz 48 telhados novos”, revela. Adiantando que o aumento da emigração foi benéfico para o crescimento profissional. “Os emigrantes queriam todos ter uma casa na terra Natal. Para a minha profissão foi muito importante”.

Com 100 anos, Abundância garante que “vivi muitas vidas”, aludindo às diversas dificuldades que ultrapassou. “A minha mãe foi mãe solteira e trabalhava todo o dia a vender, e a mim deixava-me sempre com os vizinhos. Um dia ficava com este, no outro dia com outro…”.

A prioridade da vida era “cuidar dos filhos, porque eles precisavam”, salienta Abundância. Satisfeita por ter conseguido incutir o valor do trabalho em todos os filhos. “Nós trabalhávamos continuadamente”, diz, manifestando que “não íamos muito para as festas”. Explicando que o segredo para a longevidade é “trabalhar. Só tenho pena de agora não conseguir fazer nada”.

“Estamos contentes com aquilo que Deus nos dá. Houve muitos tropeços e a gente passou o bom e o ruim”, salientava, orgulhosa pelos sete netos e oito bisnetos.
Naturais do lugar de Valadares, Outeiro, Abundância nasceu a 13 de fevereiro de 1919 e Agostinho a 28 de maio de 1923.

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