Esta obra teve para a Pintura a mesma importância de “momento inaugural” do Modernismo que, para a Música, teve a peça “L`Aprés-Midi d`un Faune” de Claude Débussy. Sendo Cézanne um pós-impressionista, já desencantado com a limitação proporcionada pelo mero prazer óptico experimentado com a apreciação da decomposição da luz em pontos coloridos sobre as áreas onde esta se derrama, não deixava ele de ser um Pintor apaixonado pela Pintura de Paisagem e pelas Naturezas-Mortas e um devotado discípulo de Eugéne Delacroix. Chegou a cultivar o Romantismo nos seus primeiros anos, por incrível que hoje possa parecer.
Eugéne Delacroix, seu velho Mestre, de certo modo prestando tributo à voluptuosidade e sensualidade de Rubens, pintou “Les Baigneuses” nos meados do Século XIX, alimentando esta sua obra com todas as suas descobertas plásticas e projectando-a como um ensinamento em direcção ao futuro. E Paul Cézanne, nos princípios do Século XX, homenageando o Mestre, retomou o tema e pintou este “Les Grandes Baigneuses”, expondo às novas gerações de artistas o resultado de todas as suas pesquisas, ideário e formas de compor. Se artistas revolucionários, como Picasso e Matisse, afirmaram que “Cézanne é o pai de todos nós”, bem sabiam o que diziam.
Tal como no quadro de Delacroix, em “Les Grandes Baigneuses” exibe-se um grupo de mulheres despidas entre arvoredo e junto de um rio, algumas conversando, outras secando-se ao sol e todas descansando, tranquilas, como que protegidas e encerradas num paraíso primordial. Embora os seus corpos reflictam o azul do céu e da água, eles parecem encaixar-se uns nos outros e, em simultâneo, nos elementos que os rodeiam, contorcendo-se e agigantando-se como se convivessem, lado a lado, sem terem em atenção as normas habituais da perspectiva. A vegetação regula o movimento dos corpos e as nuvens envolvem-nos, encerrando-os no primeiro plano. Há uma nítida manipulação dos elementos da composição a bel-prazer de Cézanne, como se este tivesse uma maior preocupação “arquitectónica” com a disposição destes elementos do que com os estritamente pictóricos. Quer dizer, tomando estas partes do todo como peças de “Lego” que vão sendo encaixadas de acordo com o diálogo – muito activo – que vai sendo estabelecido pelo autor e a composição do quadro. E este, “Les Grandes Baigneuses”, é também o fruto de um rico diálogo temporal e interpessoal que vem a conhecer a sua materialização por mãos de Paul Cézanne entre os anos de 1900 e de 1905.
Para tudo isto contribuiu a extraordinária percepção que Cézanne possuía para subordinar as leis da perspectiva às suas necessidades; a de pintar de memória e não preso à observação de modelos concretos; e, finalmente, a sua aguda capacidade de simplificar as formas, tornando-as tendencialmente “planas” depois de um aturado estudo das suas essências geométricas, as mais básicas.
Chegava Cézanne a estes extraordinários resultados porque, também, aplicava na apreciação das formas que ia desenhando o artifício que hoje se designa por “visão binocular”, ou seja, abria alternadamente tanto um olho como o outro até obter uma imagem mental que ia apontando e que, depois de transposta para a tela, sugeria “profundidade” às suas abstracções “planas”. Eis porque se justifica em pleno – e até se louva – que tanto Matisse quanto Picasso o tivessem guardado no seu coração como “o pai de todos nós”…
Américo Carneiro
N.R. – O Autor não segue as normas do novo Acordo Ortográfico.