O seu aparecimento nesta arte aconteceu como que por brincadeira, numa parceria com um colega e o Mestre Cândido Vieira – antigo professor de trabalhos manuais da Escola Frei Bartolomeu dos Mártires. A trabalharem em regime de destacamento na APPACDM, Viana do Castelo, decidiram fazer umas cabeças com os alunos dessa instituição. E, assim, a brincadeira se tornou numa atividade de grande criatividade nessa escola. Muitos dos cabeçudos exibidos, hoje, pelo grupo da APPACDM ainda são desse tempo.
Depois, foi um nunca mais acabar. Quando se reformou da atividade profissional, para ocupar o seu tempo livre decidiu construir estes simpáticos bonecos, tipicamente minhotos, para exposição e venda. Foi para si incentivo e razão o desaparecimento dos gigantones, a partir de 1985, quando a última criadora morreu sem deixar escola. Daí o impulso para ressuscitar a tradição. Sentindo entusiasmo e o incentivo de quem o rodeava, ousou construir cabeças de vários tamanhos, personalizando algumas figuras, animais, criações da Disney e, ultimamente, réplicas dos gigantones das festas da cidade.
Entre 2007 e 2010, com o patrocínio do INATEL, lecionou cursos de construção de cabeçudos na sede do Grupo Etnográfico de Areosa. A sua experiência, resultado de uma atividade regular e persistente, levaram-no a exposições, feiras, escolas, programas televisivos, participação em filmes, etc.
Mas a sua atividade sempre se distribuiu por diversas variantes. Tem o Curso de Complemento para Professores, obtido na Universidade de Aveiro, com o tema Conformação Plástica. Foi professor da disciplina de Trabalhos Manuais, mais tarde Educação Visual e Tecnológica (EVT), ao longo de 35 anos, em vários estabelecimentos do 2º Ciclo do Ensino Básico.
Viveu sempre com intensidade as Festas da Senhora d’Agonia. No período 1982/1994, trabalhou na construção dos carros do cortejo da Romaria; e no período 1995/2014, fez parte da sua Comissão Executiva, sendo um dos responsáveis pelo seu cortejo.
Da construção dos cabeçudos, uma das suas maiores paixões, presentemente, tem exemplares espalhados pelo país e pelo estrangeiro, nomeadamente, Europa, América do Norte, Austrália, Colômbia e Brasil.
Da conversa que com ele tivemos, que se segue, há pormenores bem curiosos nesta arte simpática de construir figuras que são presença requisitada na Romaria da Senhora d’Agonia.
Caro Valença, construir cabeçudos é mesmo uma paixão ou há outras razões que o levam a tal?
O fabrico de cabeçudos, pode dizer-se, já tem história. Há muito tempo, eles foram feitos por um tal “Guerrinha”, de Ponta de Lima. Mais tarde, aconteceu com um artesão de potes de Darque, de nome “Zé Poteiro”. Na década de 1950, apareceram os “Taipeiros (Manuel e Arminda Maciel” também de Darque). Eu reiniciei essa tradição/trabalho na década de 1980, na APPACDM, com a parceria do saudoso “Mestre” Cândido Vieira.
O seu percurso nesta atividade tem sido de crescendo permanente. Como se justifica este progresso?
A construção dos cabeçudos foi mesmo por brincadeira ou desafio. Nessa altura, tratou-se de aliar a curiosidade à necessidade de pôr os alunos da instituição a rasgar papel, cortar cartão, colar, pintar para que pudessem aperfeiçoar movimentos e adquirir precisão nesses trabalhos. Não vou negar que, posteriormente, não tivesse nascido uma paixão, pois as solicitações foram crescendo e variando, chegando ao ponto de pedidos de reprodução de figuras de certas pessoas, nomeadamente o Dr. Branco Morais, a caricaturar o caso da retirada do Castelo ao nome de Viana, que fez parte de um carro alegórico num carnaval.
Os seus cabeçudos, para além da diferença estética com que se apresentam, são também muito variados. Procura valorizar-se muito, particularmente no plano criativo?
Nesta atividade não paro de crescer. As solicitações repetem-se, quer para este tema, quer para outros que fogem a esta linha, como seja, por exemplo, a caracterização de pares de noivos para colocar junto do bolo de noiva, substituindo os tradicionais em cerâmica, já tão antigos. Já houve casos em que me apresentaram fotografias dos noivos, individualmente, já casados, para serem reproduzidos; e mais tarde enviaram fotos de um filho para que eu fizesse a reprodução da criança para juntar aos pais.
A justificação deste progresso deve-se às muitas exposições em que tenho vindo a participar, particularmente na Feira de Artesanato das Festas da cidade. Mas, devo também referir, a publicação desta atividade na minha página do Facebook e, esporadicamente, a participação em programas televisivos.
Procuro, também, criar novas imagens e, utilizando as réplicas dos gigantones, tenho feito outros trabalhos seguindo a mesma técnica, mas não fugindo à linha inicial. Recordo, a saber, a minha ida à Escola Superior de Tecnologia e Gestão ensinar a fazer cabeçudos e, ai, os alunos, com as minhas orientações, acabaram por fazer peixes, alertando para a poluição marinha.
Era presença assídua na feira de artesanato da Romaria d’Agonia, mas parece que este ano não vai haver os cabeçudos do Manuel Valença. Há razão especial para esta ausência?
Não há nenhuma razão especial para esta não participação, tal como tenho feito ao longo dos anos. Esta ano não estarei atendendo à situação pandémica que o pais vive, já que, apesar de todos os cuidados e medidas impostas, não me sentia seguro. Assim, adiei para o próximo ano essa minha participação. A minha idade já comporta risco; e bem gostaria de andar cá mais uns anos para poder transmitir aos vindouros os meus conhecimentos e deixar a semente desta atividade.
A sua ligação Romaria é de longa data. Pode dizer-se que ainda hoje é uma referência da nossa Romaria. Ainda pensa voltar a funções onde foi de tanta e tão grande utilidade?
Na realidade, a minha participação nas Festas foi intensa e sei que ainda hoje se nota a minha ausência, mas a razão deste afastamento prende-se com acontecimentos que, pretendo, morram comigo. Não são graves, daí que, na altura da apresentação da minha demissão, evitasse criar incompatibilidades. Já não me revia naquele enquadramento. Posso dizer que não foi fácil, mas foi uma atitude necessária.
Quanto a voltar, não fechei definitivamente a porta, mas vai ser difícil. A idade já não permite grandes correrias; e as Festas precisam de sangue novo, bem como de gente dedicada, como aqueles que comigo, durante 19 anos, souberam elevar a Romaria ao lugar destacado que hoje ocupa.
