Editorial: A guerra não tem que ser eterna

A guerra entre israelitas e palestinianos não para de acicatar ódios, com muito poucos a defenderem a paz. Houve um tempo em que se compreendeu que a concórdia só seria possível com a criação de dois Estados que satisfizessem os dois povos. Isso foi compreendido por Yitzhak Rabin (primeiro-ministro de Israel) e Yasser Arafat (representante do povo palestiniano) quando, no dia 13/09/1993, em Oslo (Noruega) estabeleceram o chamado Acordo de Oslo, com reconhecimento da coexistência de ambos os povos em espaços próprios. O acordo, mal visto por alas radicais dos dois lados, começou desde logo a ser contestado, levando ao assassinato de Yitzhak Rabin por um extremista de direita, em 4/11/1995.

A partir dessa data, os palestinianos, governados em Gaza pelo Hamas, a dita extrema esquerda, e na Cisjordânia por moderados da Fatah, nunca mais pugnaram pelo Acordo estabelecido, o que muito jeito deu a israelitas, particularmente à extrema direita, já libertos do principal obreiro do que fora estabelecido. Com a morte de Yasser Arafat, também o Hamas, de carácter terrorista, ficou com mãos livres para adotar as suas próprias práticas. 

Nesta conjuntura, foi o pobre povo dos dois lados, estimulados pelos ódios do extremismo, que sofreu ao ponto que estamos a ver, particularmente os palestinianos, que vêm sendo alvo de um genocídio, inconcebível no tempo presente, com o mundo civilizado indiferente, sempre preocupado com a morte de um ou outro israelita, mas grosseiramente desinteressado da liquidação de cerca de 73.000 palestinianos, entre eles, segundo a UNICEF, cerca de 21.000 crianças. 

Com esta mortandade, mais 170.000 feridos, boa parte amputados, e um Estado completamente arrasado, deixando sem casa mais de 2 milhões de almas, nem sequer nos sabemos indignar, e adotar as medidas convenientes, perante o espetáculo vergonhoso do ministro da Segurança Nacional de Israel a humilhar ativistas que se dirigiam solidariamente a Gaza, depois de detidos em águas internacionais. 

Os dirigentes políticos, de todas as latitudes, alheiam-se desta tragédia, esquecendo que a barbárie gera ódios que não se sabe no que resultarão no futuro. O povo israelita, por exemplo, nem sequer pensa que poderá chegar a altura em que nem terá gente para o defender, porque as juventudes cada vez mais abominam as guerras e sentem o cansaço da defesa de dirigentes que mais não fazem do que trabalhar para se perpetuarem no poder. Até os portugueses se cansaram da Guerra Colonial, como não acreditar que o mesmo poderá acontecer com outros. 

 GFM

Diretor do jornal A Aurora do Lima

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