Recentemente falecido, muito se tem falado de Francisco Pinto Balsemão. Os que o conheceram dizem que foi um exemplo para a vida, particularmente para quem pratica o jornalismo. Balsemão foi o fundador e primeiro diretor do semanário Expresso, aparecido nas bancas em 6/01/1973. Desde o primeiro número que sou leitor deste jornal, conhecendo-o suficientemente.
Com determinação e bastante coragem, Balsemão teve arte para fazer um bom jornal – até porque o fez ainda no período do Estado Novo – e construir um império no mundo da comunicação social em Portugal, rodeando-se de gente de qualidade ao nível da Redação e da opinião, e procurando, ainda, distanciar-se dos diversos poderes que dominam a sociedade portuguesa.
Contudo, não há órgãos de informação perfeitos. Há os bons, os menos bons e os de leitura não aconselhada. Uma das principais e obrigatórias características da comunicação social é a seriedade na notícia. E muito mais quando esta é delicada, porque mexe com pessoas e interesses de vária ordem. A notícia, particularmente quando é sensível, obriga a uma investigação profunda, com conhecimento de causa e ouvindo, sem exceção, as partes que possam estar envolvidas no assunto. E isso, lamentavelmente, nem sempre acontece.
Lembro-me do tratamento que o Expresso deu ao célebre caso da construção do navio Atlântida nos ENVC, e a posterior rejeição deste pelo armador. Em minha opinião, tratou-se de um trabalho amadorístico, apressado e sem profundidade na investigação, subentendendo-se que não havia uma peça forte para a primeira página do jornal e que, em cima da hora, foi agarrada esta como solução. Para os ENVC, uma empresa reconhecida no mundo inteiro pela excelência na construção de navios de tecnologia avançada, esta notícia aligeirada constituiu a sua definitiva sentença de morte. Como conhecedor de todos os contornos do desastrado negócio e construção do Atlântida, fiz várias tentativas junto de vários jornais no sentido de repor a verdade, entre eles o que fez a notícia em primeira mão, mas o assunto só no A Aurora do Lima foi tratado. A partir daí, não há ninguém que não conheça o destino dos ENVC, porque, então, o assunto passou a ser o alvo de toda a comunicação social.
Há formas de informar com grandeza e há formas de noticiar com baixeza. Neste caso, bem se pode dizer que “no melhor pano cai a nódoa”. Apesar de tudo, decorridos 52 anos, continuo leitor do jornal a que me habituei e onde ainda hoje reconheço qualidades. Há quem me critique por isso. Se calhar com razão.
GFM