Qual o maior dos problemas que identifica no concelho e como se propõe resolvê-lo?
Os problemas de habitação, mobilidade, poder de compra, ou seja, qualidade do emprego e inerente consistência da atividade económica, e as dinâmicas relacionadas com a cultura, são, no nosso entender, áreas que necessitam de respostas profundas e céleres. E destas, a cultura é mais estruturante, numa perspetiva de desenvolvimento sustentável, do que o habitual debate político poderá fazer crer. O Bloco de Esquerda defende um grande projeto integrador e potenciador do que já é feito contra ventos e marés por muitos criadores e associações em diferentes áreas. Pensar na cultura como eixo estratégico de desenvolvimento é de facto estruturante. Serve a educação global, serve uma economia diferenciada, promove a tão desejada participação cidadã. É uma aposta forte num futuro melhor.
Viana manifesta ou não dificuldades em se desenvolver e acompanhar o resto do país? O que considera oportuno para catapultar o concelho para níveis superiores de desenvolvimento?
A cidade é um reflexo gritante de dificuldades que de facto existem. Excesso de sazonalidade no turismo, falta de pessoas que habitem a cidade, falta de uma mobilidade que facilite o acesso e a permanência cómoda ao ritmo da vida das pessoas que resultam de políticas de mobilidade inexistentes, ou, na prática indefinidas ou mal concretizadas, uma oferta cultural relativamente pobre e pouco capaz de se diferenciar, um comércio cansado de um arrastar “crónico” da insuficiência de procura que lhe traga folego e energia, pouca criatividade, os polos museológicos com pouca ousadia na sua atividade, enfim, uma conjugação de obstáculos estruturais, inércia e desânimo, que precisam de ser quebrados com políticas globais que tragam um novo ar e um novo ânimo, que junte vontades para sair da cepa torta. É necessário inverter as causas, com políticas concelhias que resolvam os problemas estruturais.
Que propostas têm para a resolução dos problemas habitacionais no concelho?
Não estão ainda esgotados todos os mecanismos que a lei permite serem usados pelos municípios de forma a incentivar o regresso ao mercado de venda e arrendamento de muitos dos milhares de imóveis desocupados. E isso tem que ser feito. E tem que mudar o quadro de incentivos à reabilitação. O Bloco de Esquerda propõe apoios especiais reforçados para projetos cooperativos e outros modelos de associativismo para acesso à habitação compatível com o rendimento das pessoas que abra o leque de soluções com apoio municipal. O município reabilitar habitações para serem utilizadas na promoção de partilha entre pessoas idosas, aumentando a segurança, reduzindo custos e combatendo o isolamento, parece-nos também uma resposta necessária, alinhada com a realidade que vivemos. E isto pode e deve ser feito no centro da cidade também. Defendemos também que, durante o próximo mandato, 80% do valor do IRS que o município recebe seja utilizado exclusivamente para ampliação do parque de habitação pública. Habitações de luxo e imóveis com preços altamente encarecidos não podem continuar a beneficiar de vantagens fiscais por parte do município. É imoral e retira ao orçamento público milhões que são necessário para responder às necessidades de quem precisa.
Viana do Castelo saiu-se bem, pelo menos até determinada altura, no enquadramento e apoio à emigração. Como encaram esta questão, dadas até às perspetivas de crescimento da comunidade migrante?
É necessário reforçar as respostas específicas na área da educação para os jovens imigrantes e ampliar os serviços de acompanhamento para ensino da língua portuguesa e apoio cívico para todos. De resto, nada indicia que estejamos com dificuldades relevantes na integração dessas pessoas. Muito pelo contrário.
Acha que Viana fica mais bem servida com as recentes alterações a nível de transporte urbano?
Poderão constituir um avanço no sentido do que nos parece necessário fazer. Embora insuficiente, pode constituir uma melhoria significativa. Lamentamos que algumas evidentes fragilidades de planeamento criem demasiado ruído em torno deste processo e, o mais grave, transtornos e insegurança a muitos utentes. O Bloco de Esquerda sustenta há muito que uma rede de transporte que sirva todo o território concelhio e que garanta boas ligações a outros destinos é uma condição básica para o desenvolvimento.
Porque é importante a sua candidatura à Câmara de Viana do Castelo?
Não concebemos a política sem participação livre, responsável e exigente. Viana do Castelo pode sair da cepa torta! Para isso, é preciso fazer diferente para que os resultados sejam outros! O Bloco de Esquerda quer contribuir com ideias e princípios para um caminho novo, que traga desenvolvimento sem a selvajaria da ganância do crescimento sem preocupações sociais e culturais. Como diz a velha cantiga “P’ra melhor está bem, está bem! P’ra pior já basta assim!”.
Que resultados perspetiva para a vossa força política nestas eleições?
Temos obrigação de estar preparados para qualquer resultado. Até para ganhar eleições, apesar de improvável… Esta não é uma candidatura de faz de conta! Para marcar presença apenas! Muito pelo contrário! Estamos de corpo inteiro para debater o estado atual e um futuro melhor para o concelho. Vamos fazê-lo de modo a que os cidadãos compreendam as nossas propostas. Vamos dar o nosso melhor! Se tivermos pela primeira vez um eleito na vereação, teremos melhores condições para influenciar positivamente a política municipal daqui para a frente. Creio que se as urnas expressarem essa confiança já será um bom resultado.
Quer acrescentar algo que tenha ficado por dizer e ache fundamental referir aqui?
A atividade política tem-se degradado muito por muitas razões. A falta de cultura democrática no exercício do poder, é uma delas. É muito pouca a democracia quando a obtenção da legitimidade através do voto é seguida da redução do espaço de participação. Torna-se predominante um núcleo de interesses que se encosta e bajula quem está no poder. A informação dá lugar à propaganda e a um desfile de pequenas vaidades. Os interesses dos mais fortes são quem mais tem condições para influenciar o que se decide. Este é um “filme” que estamos todos cansados de ver. A direita fascizante cavalga estas fragilidade para destruir a democracia. O nosso lado da história é defender e aprofundar a democracia. Estamos a fazer o nosso melhor nesse sentido.
