Será que sorriu para a morte, com aquele sorriso que sempre tinha para com todos nós, quer para com aqueles com quem regularmente privava, quer com os que conhecia menos? Será que no estertor próprio do fim da vida saudou a morte que o libertaria da dor, com aquela naturalidade com que cumprimentava todos. Se não o fez é porque já estaria limitado fisicamente, porque o sorriso e a bondade eram componentes intrínsecos da sua pessoa.
Respirava bondade e, aparentemente, também denotava saúde, até porque era suficientemente regrado na vida que fazia. A questão é que nunca sabemos por quanto tempo estaremos bem. Também não pensamos muito nisso, mas era bom que não nos esquecêssemos de como estamos expostos e partirmos quando menos se espera. Talvez assim cultivassemos mais a amizade e a solidariedade.
Com o Salvato, durante muito tempo, diariamente, privei. Não só porque ambos trabalhávamos nos ENVC, mas porque, em cada dia, durante anos, fomos a pé para a empresa, numa cavaqueira que muito ajudava a iniciar cada diz de trabalho suficientemente armados com boa disposição. Não fazíamos como muitos com quem íamos deparando no caminho, com a saudação do “lá vamos nós para o purgatório”.
E, tal como era no trabalho, era em todo o lado. Foi bombeiro de 1974 a 1983, Não sei em que ano começou a fazer parte do Grupo Folclórico de Viana (onde muito admirava a sua destreza para a dança), mas sei que ainda era quase criança quando para lá entrou. E aí se manteve até que a maldita doença o impossibilitasse. Reformou-se e, a partir daí, na Liga dos Amigos do Hospital, deu expressão àquele sentimento de solidariedade pouco extensível a outros. Aí, bem o definiu o Presidente da Liga, Dr.Defensor Moura: “A Liga dos Amigos do Hospital de Viana do Castelo perdeu hoje um dos seus mais dedicados e assíduos voluntários. Sentimos a sua falta desde que ficou doente, mas vamos recordar para sempre o Amigo Salvato como exemplo maior de dedicação, disponibilidade e carinho para os numerosos doentes a quem ajudou a passar horas penosas”.
Mais palavras para quê? Que estejas no lugar merecido, Amigo Salvato. Jamais esquecerei o nosso encontro diário, durante anos, para a cavaqueira alegre que nos acompanhava até aos ENVC.
GFM
