Porfírio Silva, escritor vianense, licenciado em Filosofia e pós-graduado em Filosofia Moderna e Contemporânea pela Universidade do Minho, técnico superior na Biblioteca Municipal de Viana do Castelo e colaborador regular deste jornal, estará em Coimbra pelo sétimo ano consecutivo para participar, desta vez, no “X Congresso Internacional de História da Loucura, Psiquiatria e Saúde Mental”, numa organização da «Sociedade de História Interdisciplinar da Saúde – SHIS» e coorganização científica e colaboração institucional do «Grupo de História e Sociologia da Ciência e da Tecnologia do Centro de Estudos interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra — GHSCT-CEIS20».
Tal como os anteriores, este Congresso, comemorativo do 10º aniversário, visa dar continuidade a temáticas apresentadas e aprofundar as frentes de discussão abertas desde a primeira edição. Decorrerá do dia 06 a 08 de maio e aí Porfírio abordará o tema que dá título à sua comunicação, «Magalhães Lima (1850-1928). Em nome da Razão e dos preceitos civilizadores: A Cremação de Cadáveres para uma Higiene Social».
A participação consecutiva de Porfírio Silva nestas jornadas científicas foi razão para que com ele tivéssemos uma curta conversa. “Este será o sétimo ano consecutivo que participo em jornadas desta natureza”, diz-nos, para logo adiantar: “esta participação, tendo como parceiros os maiores especialistas ligados à história interdisciplinar de saúde, à psiquiatria e à psicologia, continua a ser fruto do desafio lançado pela comissão científica, liderada pelos Professores Doutores Ana Leonor Pereira e João Rui Pita, da Universidade de Coimbra”.
Porfírio Silva adianta que, este ano, irá abordar a “cremação de cadáveres”, centrando-se num tema que lhe é muito grato e que é transversal ao período, por ele estudado e ainda sem conclusão, do problema do eugenismo no final do século XIX português e primeira metade do século XX, tendo em conta uma análise filosófica sobre os problemas éticos de algumas doutrinas biológicas. No ano em que se celebra o 169.º aniversário do nascimento de Sebastião de Magalhães Lima, é pretexto da sua parte analisar a sua obra “A Cremação de Cadáveres”, dentro da literatura portuguesa do início do século XX sobre os processos de higienização social, contextualizada, por sua vez, nas grandes discussões, vindas de oitocentos, acerca da afirmação das nações cultas e civilizadas. Diz também que “o ideal civilizacional das nações objetivava-se nas convicções e comportamentos dos indivíduos, sob os princípios positivistas da razão, confirmados pela ciência, e na construção do homem civilizado, onde a norma comportamental fundada na razão científica serviria para classificar os cidadãos”. Acrescenta que Magalhães Lima, depois de uma justificação antropológica, histórica e científica da cremação, fundamenta a aceitação da sua argumentação nas consequências higienistas, ao mesmo tempo que desclassifica a posição contrária, eivada de sentimentalismos religiosos e ignorância higiénica.
Porfírio Silva aposta em continuar firmado no propósito de satisfazer o puro desejo de saber, enquanto forma desinteressada de adquirir conhecimento. Afirma, ainda, que, no meio de tudo isto, o único desafio interessante é a procura do lado epistémico da “coisa em si”, enquanto conceito filosófico ou cognitivo, a sua verdade e a evidência dela. “E aqui não podemos viver da aparência, porque por detrás da mesma não há um ser verdadeiro que se serve dela para se ocultar. Daí, ainda que me torne repetitivo, continuar a afirmar a minha paixão pela Filosofia da Mente e/ou Ciências Cognitivas, porque essa mesma paixão advém do que me habituei a denominar de projeto de unificação da função psíquica que assegura a recolha de conteúdos, o armazenamento, a transformação e tratamentos das informações que recebemos do mundo exterior, num processo que nos encaminhe no sentido da interpretação das estruturas objetivas enquanto expressões da vida psíquica”.
Questionado sobre as razões para mais este convite, há sete anos consecutivos, em contraste com a ausência de solicitações para iniciativas em Viana do Castelo, o Porfírio diz que a resposta a essa pergunta compete às instituições políticas, culturais ou científicas da região. “Contudo, não resisto à tentação de dizer que tudo me leva a crer que talvez não esteja à altura dos padrões exigíveis dos promotores de tais conclaves ou, quiçá, o propósito desses padrões de exigência seja a consequência da determinação dos elementos que os compõem, sem que a ordem da liberdade para o fazerem, por exclusão, signifique que se possa confundir com a ordem da razão”. E, com risos à mistura, conclui afirmando que, um pouco por todo o Alto Minho, se costuma dizer que aos casamentos e aos batizados só vão os convidados.
G.F.M.