Nasceu no Perú, viveu nos Estados Unidos da América e encontrou a “paz” em Viana do Castelo.
Depois de uma vida de alguns “vícios” dedica-se agora a ajudar o próximo. A maior parte do seu tempo é passado no Banco Alimentar de Viana do Castelo e no núcleo local da Refood, onde faz voluntariado cinco dias por semana.
Miguel Castillo Larru nasceu no Perú há 59 anos e teve na vida alguns percalços. “Nasci no Peru e os meus pais nunca me deram amor. A minha mãe tinha outro filho, de outro senhor, e dava todo o amor a esse meu irmão”, expressa. Adiantando ainda que nos anos 70, a mãe parte para os EUA e deixa-o com o pai, que o alienou. Com oito anos, Miguel Larru decide ir procurar trabalho para se alimentar, assim como ao irmão mais novo. “Em 1970, a minha mãe foi para os EUA e eu fiquei com o meu pai no Perú e foi o pior que me poderia acontecer, porque o meu pai começou a beber e não cuidava nem de mim, nem do meu irmão mais pequeno. A minha mãe mandava dinheiro para nós e ele nunca nos dava nada”, lamenta.
Com 16 anos foi para os EUA, mas aí as coisas também não foram fáceis. Um ano depois, a mãe colocou-o fora de casa e Miguel Larru teve de sobreviver sozinho num país desconhecido. Depois de ter ficado três meses em casa de uma mulher de Puerto Rico, conseguiu alugar uma casa num bairro de portugueses. “Aí aconteceu a minha pequena desgraça. Comecei a fumar marijuana e a beber”, refere. Como jogava futebol foi convidado por um português para se juntar à equipa lusa e aí percebeu que “os portugueses gostam muito de comer. Depois de cada jogo punham uma mesa muito grande com muita comida e bebida”, assinala.
Em 1978 trabalhava numa fábrica e, a convite de um português enveredou pela construção civil. Uns anos depois conhece a mulher, também ela uma portuguesa e natural de Viana do Castelo. “Essa mulher foi o melhor que me aconteceu na vida”, assinala. Acrescentando que esse relacionamento não o impediu de continuar com as adições, sobretudo o consumo de marijuana, mas continuou a trabalhar “normalmente”.
CANCRO E MORTE DO FILHO
Quando a mulher foi diagnosticada com cancro da mama e um filho, que tinha no Perú, faleceu o “mundo desabou”. “Foram dois golpes muito grandes e o pior que fiz foi meter-me em dependências. Eu fazia isso para esquecer, porque cada vez que consumia eu chorava”, explica.
Depois de três tentativas de suicídio e ter conseguido uma reforma por invalidez, a mulher portuguesa decidiu regressar a Viana do Castelo e cá procurar uma clínica de recuperação. Após 11 meses de recuperação (mais três meses do que o habitual) numa clínica no Porto, Miguel Larru saiu e hoje ajuda outros dependentes. Faz sessões nas prisões e nos vários núcleos do Alto Minho dos Narcóticos Anónimos (NA).
“Aqui em Viana há muita gente a consumir e que não participa nas reuniões que faço na igreja do Carmo. Faço também reuniões em Ponte da Barca, porque isso também me ajuda a mim”, informa. Manifestando que “no tratamento sempre me diziam que uma pessoa que faz tratamento e sai deve procurar participar em reuniões de grupo para não ter tentação de voltar a consumir”.
Por se sentir “eternamente grato” ao país, Miguel Larru retribui com trabalho voluntário e amor ao próximo. “Tenho muita gratidão a este país, porque aqui consegui a minha recuperação. Por isso agora faço voluntariado em algumas instituições. Vim para aqui e abriram-me as portas. Eu tenho de agradecer. Este país salvou-me a vida”.
