Viana do Castelo há 100 anos regressa à atualidade na 32.ª edição de A Falar de Viana

Há cem anos, Viana do Castelo vivia um momento de extraordinária vitalidade, com o avanço das obras do Templo-Monumento de Santa Luzia e inauguração das novas instalações da Biblioteca Pública Municipal e do Museu de Arte Regional. A imprensa local multiplicava títulos dedicados à cultura, ao património e ao desporto e a Romaria de Nossa Senhora d’Agonia consolidava a dimensão que a transformaria numa das maiores manifestações religiosas e populares do país.

É essa cidade que regressa agora à atualidade na 32.a edição da revista A Falar de Viana, publicação oficial da Romaria 2026, que recorda também as históricas festas de 1926. Com cerca de 300 páginas, a edição convida os leitores a viajar até uma cidade muito diferente da atual, mas onde já se encontravam muitos dos elementos que continuam a definir a identidade vianense.

O volume de 2026, como é hábito lançado poucos dias antes da Romaria da Senhora d’Agonia, reúne o contributo de investigadores, historiadores, escritores e cronistas que recuperam episódios, figuras e lugares que marcaram um dos anos mais relevantes da história local.

O percurso começa precisamente com A Cidade e as Festas d’Agonia em 1926, texto de Rui Viana que reconstrói o ambiente social, económico e político de uma Viana que crescia e se modernizava. Revela ainda país onde mais de metade da população adulta era analfabeta, existiam apenas algumas dezenas de milhares de automóveis matriculados e a instabilidade política dominava a atualidade nacional, mas também uma cidade dinâmica, capaz de organizar grandes eventos, investir em cultura e projetar-se para o futuro.

Entre os episódios recuperados destaca-se a inauguração da Biblioteca Pública Municipal e do Museu de Arte Regional no Palacete Barbosa Maciel. A própria imprensa da época registou o momento, escrevendo que “sem formalidades espetaculosas (…) procedeu-se à inauguração da Biblioteca Pública Municipal e do Museu de Arte Regional”. Cem anos depois, essa notícia permite revisitar um dos momentos fundadores da vida cultural moderna da cidade.

O centenário das festas de 1926 traz igualmente para primeiro plano a história de Santa Luzia. O livro recorda a abertura ao culto da capela-mor do templo durante as Festas d’Agonia desse ano e recupera a história do boletim Santa Luzia, lançado em março de 1926 para divulgar a evolução das obras e mobilizar a população. Nas suas páginas defendia-se a necessidade de “propagandear o esforço despendido em favor da realização deste gigantesco projeto”, expressão que testemunha a mobilização coletiva em torno daquele que viria a tornar-se o principal símbolo de Viana do Castelo.

Uma das figuras centrais da publicação é Bernardo Pinto Abrunhosa, empresário, industrial e benemérito ligado ao elevador de Santa Luzia, ao hotel da montanha e a vários projetos de modernização urbana. Após a sua morte, em outubro de 1926, a imprensa vianense multiplicou elogios à sua ação. Num dos textos reproduzidos na revista é recordado como “o primeiro cidadão do Município”; noutro surge descrito como “o homem que tanto se destacou nos melhoramentos da montanha de Santa Luzia”.

Mas a Viana de há cem anos era também surpreendentemente moderna. Os leitores poderão descobrir que a cidade acolheu o 1.o Circuito Velocipédico de Portugal, apontado como um dos antecedentes históricos da atual Volta a Portugal em bicicleta. O livro recupera regulamentos, notícias, curiosidades e nomes dos participantes, revelando um concelho já integrado nos grandes eventos desportivos do país. Ao lado do ciclismo surgem referências a gincanas automobilísticas, concursos, atividades náuticas e inúmeras iniciativas promovidas por associações locais.

A imprensa ocupa um papel fundamental neste retrato da cidade. A revista revisita periódicos como Alma Nova, Santa Luzia e Viana Desportiva, que testemunham uma comunidade particularmente ativa na produção cultural e no debate público. Em Alma Nova defendia-se “o engrandecimento da nossa terra”, enquanto as publicações ligadas a Santa Luzia procuravam mobilizar os vianenses para a conclusão do monumento e para a afirmação da cidade.

Naturalmente, a Romaria ocupa um espaço privilegiado nesta edição comemorativa. As páginas dedicadas às festas mostram uma organização determinada em transformar a celebração numa verdadeira montra do Alto Minho. Lavradores, pescadores, moleiros, artesãos e camponeses eram convidados a participar para mostrar “as vossas tradições e trabalhos” e trazer “a nota alegre e expansiva às festas de Viana”.

O leitor descobrirá também que algumas das imagens atualmente mais emblemáticas da Romaria têm raízes profundas. Em 1926 organizaram-se iniciativas destinadas a apresentar e valorizar os diferentes trajes regionais do Minho. A imprensa da época apelava: “Avante lavradores! Avante lavradeiras! Vamos ao certame regional!”, revelando a importância atribuída à afirmação pública da cultura popular e do traje tradicional.

A expectativa em torno das festas era enorme. Um dos jornais reproduzidos nesta edição antecipava que “as festas serão muito mais concorridas que as dos últimos anos”, retratando uma cidade confiante na capacidade de atrair visitantes e afirmar-se como destino de referência.

Além da vertente histórica, a publicação mantém uma forte dimensão literária. A secção de antologia poética reúne textos de autores ligados a Viana do Castelo. Ao longo das suas quase 300 páginas, os leitores encontrarão ainda trabalhos dedicados à Senhora da Agonia, à dança da Mordomia, ao Cancioneiro de Viana do Castelo, à quadra popular do Vale do Lima, à evolução urbana da cidade, à antiga Rua da Bandeira, ao património religioso, à memória dos Estaleiros Navais, ao Seminário das Ursulinas, à Igreja do Sagrado Coração de Jesus, ao património documental da imprensa regional e a muitas outras dimensões da história vianense.

Na apresentação da revista, os coordenadores recordam que “A Falar de Viana é mais do que uma revista, é um espaço de encontro entre gerações, onde a fé, a cultura, a história e a identidade se entrelaçam”, ideia que percorre toda esta edição especial.

Publicada no âmbito da Romaria de Nossa Senhora d’Agonia 2026, que decorre entre 15 e 23 de agosto, esta edição constitui simultaneamente uma celebração do centenário das festas de 1926 e um retrato detalhado de uma cidade em transformação. Quem hoje percorre a procissão ao mar, admira os trajes da mordomia, sobe a Santa Luzia ou visita a Biblioteca Municipal encontrará nestas páginas as histórias, personagens, jornais e acontecimentos que ajudaram a construir a Viana contemporânea. Cem anos depois, continua a ser impossível compreender a história da Romaria sem compreender a história da cidade que a viu crescer.

Fundado a 15 de dezembro de 1855, tem como objetivo principal a defesa intransigente dos interesses e das reivindicações legítimas das populações, e do progresso económico, cultural e social da região onde se publica.

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