Acompanhamos a tomada de posse do novo Presidente da República, dando particular atenção ao seu discurso de empossamento, a parte mais importante da cerimónia. Poderá dizer-se que os discursos valem o que valem, mas há que não confundir retórica comicieira, com dissertações de atos com majestade.
Naturalmente, um discurso de posse do titular do mais alto cargo da Nação não pode distanciar-se de princípios que o empossado entende como elementares no desempenho das funções para que foi eleito. Depois, também seria de esperar que António José Seguro não fosse muito além do que já tinha prometido no seu discurso de vitória no dia das eleições. À parte a elegância que procurou dar à sua mensagem, habitual nestas cerimónias, cortejando quem sai e saudando quem no ato marcou presença por razões obrigatórias e de cortesia, o novo Presidente, como também se compreende, só deu mais ênfase a questões que se prendem com a forma de agir na sua nova função, tendo em conta os poderes que lhe são atribuídos pela Constituição.
Reforçou, e isso é importante, problemas crónicos de que o país enferma, a começar no nosso ainda baixo desenvolvimento económico, que permite mal acudir a um nível de qualidade de vida decente. Não esqueceu as insuficiências do Serviço Nacional de Saúde para acudir a uma procura de serviços médicos cada vez maior dos cidadãos, resultante do crescimento da sua longevidade, porque ninguém, e bem, está disposto a abrir portas à doença e à morte; lembrou os problemas habitacionais, que se agravam em cada dia, não chegando, em boa parte dos casos, um dos ordenados dos casais para se conseguir casa condigna; deu saliência à necessidade de se encontrar consensos nas leis laborais, chamando todos à mesa das negociações; e reforçou a necessidade de acabar com as diferenças salariais entre homens e mulheres, algo que nos devia envergonhar a todos, a começar nos governantes e nas entidades empregadoras.
Pode dizer-se que se tratou de um discurso à medida do perfil do novo Presidente, apesar de boa parte dos seus camaradas entenderem que ele não reunia condições mínimas para o desempenho da função e primarem pelo mutismo em relação à sua eleição. Razão para que se diga que, infelizmente, a política está muito necessitada de nobreza.
Saliente-se, como nota final, o orgulho que nos dá a riqueza das cerimónias de cariz democrático como esta que acabamos de viver, em contraste com o que acontece em boa parte do mundo, pejado de tiranias, em guerra, ódios, miséria, e tanta gente a morrer de fome.
GFM