Carlos Araújo (1940/2026): Partiu um fazedor de sólidas amizades

Uma das suas maiores amizades era o Aurora do Lima e a suas gentes. Era um prazer falar com ele quando nos visitava. Depois de uma saudação amiga e sentida, o que mais desejava saber era como ia o nosso jornal, que lia e observava com minúcia há já muitos anos. Nutria por nós uma amizade que respirava, e que todos sentíamos. A sua primeira pergunta era saber da estabilidade financeira da casa, porque, como salientava permanentemente, o Aurora do Lima era uma instituição com um passado glorioso e que, passados 170 anos de vida, era impossível não saber resistir. Mas não é só porque era nosso estimado amigo, até porque já estamos muito habituados a que boa parte dos nossos assinantes nos transmitam amizade e nos questionem regularmente sobre a saúde financeira de quem, ao longo do tempo, fez da resistência o seu emblema de marca.

O Carlos era um homem de uma bondade imensa e que só se sentia bem estando de bem com todos, particularmente com os que conhecia melhor. Estudou no antigo Liceu e mais tarde emigrou. E foi a emigração que o livrou da guerra colonial. Para muitos dos que emigraram e não cumpriram o Serviço Militar, é uma honra não ter participado numa guerra sem sentido. Mas o Carlos nunca soube gerir bem essa situação. Muito particularmente, meio atrapalhado, dizia que ver a gente do tempo dele envolvida na guerra, onde tantos morreram, e ele fora do país, o deixava confuso. Se lhe dizíamos que foi o melhor que poderia ter feito, porque muitos dos que lá estiveram também, por outras razões, se sentiam mal, ele, mesmo assim não geria de todo bem a sua incomodidade. Com um sorriso triste, preferia calar-se.

Nada supunha que partisse repentinamente como aconteceu, mas a morte é demasiado traiçoeira. Há pouco tempo tivemos a ocasião de o abraçar em plena Avenida dos Combatentes e, com o seu sorriso discreto, despediu-se, provavelmente convicto que nos encontraríamos brevemente. Como andamos todos enganados! Que estejas bem, Carlos. 

Para a Rosalina Silva, a sua fiel companheira, e para a família em geral, vai a nossa solidariedade neste momento triste.  

GFM

Diretor do jornal A Aurora do Lima

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