Charles Baudelaire é conhecido como um dos grandes poetas franceses do século XIX, muitas vezes incluído entre os chamados “poetas malditos”. Escritores que olham o mundo de um ângulo diferente, quase sempre à margem, carregando dentro de si uma inquietação difícil de explicar. Os escorpiões também têm má fama. Traiçoeiros, silenciosos, escondem-se debaixo da areia dos desertos e atacam quando menos se espera. Talvez por isso o escorpião do deserto tenha sido adotado por muitos soldados da Legião Estrangeira Francesa como símbolo pessoal depois de missões no Saara e noutras operações no Norte de África. Mas que relação pode existir entre a Legião Francesa, um escorpião e Baudelaire? É aqui que começa mais uma das minhas crónicas.
O doente daquele dia tinha praticamente a minha idade quando foi internado: 60 anos. Mais um caso de cancro do intestino em fase paliativa, sem retorno possível. Os bons dias de circunstância. A breve conversa de apresentação, o questionário médico para construção da ‘história’ clínica e a observação cuidada e global do doente. Neste exame físico despertou a minha particular atenção, uma tatuagem realista na perna esquerda, a representar um escorpião em posição de ataque. Reformado do Exército, filho de emigrantes em França, Joaquim tinha passado pela Legião Estrangeira antes de regressar a Portugal. Servira no Norte de África. A conversa que se seguiu foi surpreendentemente rica. Falámos de disciplina, de honra militar e de camaradagem dentro de uma Força Militar mal conhecida e muitas vezes mal-entendida, mas onde os homens aprendem rapidamente que apenas unidos sobrevivem. Verdadeiros irmãos de armas.
Mas a observação clínica não pode, nunca, esgotar-se na geografia do corpo. Há um território mais vasto e silencioso, por vezes escondido e que exige igual atenção: a mente. Esse lugar onde a doença ganha sentido, medo e memória. Pequenos sinais, quase invisíveis, que não cabem em análises nem em exames de imagem, mas que revelam histórias, afetos, ausências. No hospital, esse universo íntimo encolhe quase sempre até caber numa mesa de cabeceira — fria, metálica, estreita — onde repousam os poucos objetos que ainda o ligam à vida de fora: uma fotografia amarrotada, um livro interrompido, um telemóvel silencioso, e por vezes em sinal de fé na Medicina um terço esquecido entre os dedos. Foi nesse reduzido espaço que se revelou o essencial – o livro. Uma pequena coletânea de poemas de Baudelaire. Um homem doente no fim de vida, mas com perfil de lutador. Um antigo legionário que se identifica com uma tatuagem de um escorpião, e que tem Baudelaire como companhia num quarto de hospital.
A partir desse momento algo mudou entre nós. Afinidades eletivas. A relação médico-doente ganhou outra dimensão. Passámos a falar de poesia. Líamos alguns versos em francês que comentávamos na nossa língua mãe. Joaquim dizia em tom de graça que também ele se sentia um pouco “maldito” pela desgraça da doença. Da vida e da guerra nunca falamos. Os militares falam da guerra só entre irmãos de armas. De vez em quando despedíamo-nos com a velha divisa da Legião Estrangeira: ‘Marche ou Crève (Marcha ou Morte).
Entretanto a doença avançava. Joaquim sabia que a sua última batalha estava a chegar ao fim. Eu como médico também sabia que aquela era uma luta que os dois iríamos perder. Conseguimos que tivesse alta para passar os últimos dias com a família. Tinha ainda um desejo que conseguiu concretizar: ver o neto que, entretanto, tinha nascido. Assim, em passos de veludo, foi cumprindo a sua última marcha com serenidade e dignidade.
Continuámos a trocar algumas mensagens. Pequenos pensamentos. Poesia. A última que lhe enviei dizia apenas: “Última missão. O meu abraço amigo. As minhas desculpas porque desta vez não te consigo resgatar. A recordação, o que aprendi contigo, a amizade… serão para sempre. Marche ou Crève.” A resposta chegou pouco depois. Uma única frase de Baudelaire:
“Embriaga-te.” * Embriaga-te de vinho, de poesia ou de virtude — escreveu o poeta maldito.
Há encontros na vida que duram pouco. Mas ficam para sempre.
* https://youtu.be/wB_SDx1aw1s?si=c0XWpAZGOu-86QCv