LXVI. CHAGALL

LXVI. CHAGALL

É de noite… ou, então, estamos vogando no espaço infinito, para lá do inimaginável, do que é tangível e do que, no plano humano, pode ser sonhado. O azul sem fim deste quadro é a perfeita metáfora para tudo o que pode ser concebido como infinito, como intemporal, para o que, não sendo ainda dia, não chega a ser noite fechada. O azul é o céu, é o mar, é o mistério que perpetuamente nos cerca. Logo, ele é o protector dos amantes, envolve-os e alimenta-os, permitindo que, aqui ou ali, haja rasgos de luz que revelem os seus gestos, um ou outro relampejar das suas carícias. Tornando-se um outro espaço e um outro tempo – sem sol – nem por isso lhe é vedada a luz explosiva da vida, bem pelo contrário. No centro, e espraiando-se por todo o quadro, está uma imensa jarra de flores, das mais diversas cores e configurações, alegoria triunfante do Jardim Perdido e, em simultâneo, da Árvore da Vida, fonte de onde emana toda a Luz, toda a Vida. E, assim, em conjugação simbólica poderosa e rica, já é no Espírito que Chagall cavalga e que nos arrasta, deliciados pelas forças da revelação que nos abraçam, mostrando-nos que é na diversidade que reside toda a riqueza, toda a fecundidade do Amor, da Vida, da Esperança. Só estes poderão ser os caminhos do tempo presente e de um futuro com sentido, só estes, naturalmente, poderão guiar o Homem.

Marc Chagall foi sempre um pintor que, partindo das coisas mais simples, facilmente as extrapolou até atingirem os sentidos mais profundos e universais. Com o “pouco” sempre construiu o “máximo” em arroubos de sonho inimagináveis.

Chagall nasceu num pequeno povoado russo (em Vitebsk), onde, na juventude, aprendeu os rudimentos da Pintura. Conseguiu inscrever-se na prestigiada Academia de Arte de São Petersburgo que depois frequentou com êxito, e, daí, rumou a Paris, à Cidade-Luz, onde a sua vida viria a transformar-se. Não poderia ser de outra forma, naqueles primeiros anos do século XX, Paris era o centro do mundo para as vanguardas artísticas e intelectuais, o Modernismo nascia e entrava em efervescência e Marc Chagall, conhecendo e vindo a desenvolver laços de amizade com personalidades como Guillaume Apollinaire, Blaise Cendrars, Modigliani e La Fresnay, sentia-se como peixe na água e saltava alegremente para o olho do furacão.

Com o advento da I Guerra Mundial, Marc Chagall regressou à sua Rússia natal, protegendo-se e protegendo os seus.

No pós-guerra, nos anos vinte, regressou a Paris e à companhia dos seus amigos, entregou-se de alma e coração a uma intensa actividade que, ao longo da vida, repartiu entre a pintura, a cenografia, a cerâmica, a tapeçaria, os vitrais e os mosaicos.

Falecendo no Sul de França, em Saint-Paul-de-Vence, com quase cem anos de idade, Marc Chagall viria a ser considerado, muito justamente, um dos mais geniais Pintores do Século XX.    

Américo Carneiro

N.R. – O Autor não segue as normas do novo Acordo Ortográfico.

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