“RAINHA
Há um salgueiro à beira de um regato
No cristal da corrente espelhando encanecidas folhas;
Aí foi ela dar com estranhas grinaldas
De rainúnculos, urtigas, margaridas
E das grandes flores purpúreas a que os pastores
De língua solta dão um nome feio
E as nossas raparigas chamam dedos de mortos;
Aí, subindo para suspender nos ramos novos
Sua estranha fantástica coroa,
Quebrou-se um tronco invejoso
E ela e seus troféus floridos
Caíram no regato em pranto!
Enfunaram-se-lhe os vestidos sustendo-a e
Qual nova sereia, cantava velhos cantares,
Pedaços de canções antigas, sempre alheada
De por onde ia ou como criatura
Nativa dessas águas. Mas não foi longe:
Suas vestes empapadas de água
Levaram donzela e seus melodiosos lais
À morte no lodo.”
(W. Shakespeare, “Hamlet”, IV Acto, Cena VII) *
Esta é a única descrição (e em discurso indirecto) do que poderá ter acontecido a Ofélia, doce “donzela, ninfa e sereia”, noiva repudiada do Príncipe Hamlet. Ofélia, que é lançada no seio de uma conspiração complexa, ela que poderia ser um anjo salvador, desaparece de cena e transforma-se na personificação do Mistério.
Porque sonha, porque existe de verdade, porque quer viver e dar vida, porque ama e quer ser amada, “desaparece” assim, num lugar místico banhado por um regato cristalino, quando, como se fosse uma Ninfa vestida de grinaldas e coroas, se ocupa a ornamentar os galhos de um velho salgueiro…
Não se sabe se por acidente mortal ou por suicídio, Ofélia nunca mais é vista. E o Príncipe Hamlet, como que simbolicamente descendo ao Hades, dirige-se ao cemitério e pede ao coveiro que este lhe mostre os seus restos mortais e possa, assim, acreditar que Ofélia “morreu”. Mas o coveiro é o mais sábio dos filósofos e às suas dúvidas vai responder com novas dúvidas e ambíguas respostas, afirmando que não pode mostrar ossadas num cemitério de “alguém como o ser que lhe é descrito, pois um tal ser nunca ali foi visto nem alguma vez poderia ter sido ali sepultado”!…
Neste quadro, “Ofélia entre as Flores”, exuberante de cor, de beleza, de poesia, Ofélia é representada por Odilon Redon de uma forma que se pode prestar a múltiplas leituras. Perante a visão da sua bela cabeça, quase a de uma criança adormecida em amoroso sono, ornada com grinaldas de florzinhas brancas e delicados colares, tanto pode entender-se que está a mergulhar nas águas cristalinas do regato como que se está erguendo acima delas. O rosto é sereno. No céu há uma explosão de flores que invade a atmosfera primaveril e parece apagar a silhueta de um velho tronco de árvore. Tudo tem aquele ar de festa que nunca se esperaria no tratamento de tal tema literário. Parece que “nos fala” de romagem, de libertação, de outras dimensões….
Que visão é esta? A “paisagem interior” de uma Ofélia liberta? A visão do mundo ao qual desceu – ou ascendeu? Ou também aquela visão partilhada que, a partir de agora, nós podemos colher, já que observámos a obra e a interiorizámos?…