XII – Guttuso

XII – Guttuso

No centro do quadro há um grande vazio. Cristo está crucificado como um dos outros homens, como mais um “malfeitor”, um “marginal”, só que ainda mais desviado do vórtice central da acção anárquica, irracional, ainda “histórica”, sim, mas já sem qualquer possibilidade de abordagem religiosa, do que os outros supliciados. 

   Aliás, só o vislumbramos e distinguimos – na sua violência de atormentado contra um céu que deixou de existir, no limite do quadro, limite baixo, opressivo – pela coroa de espinhos, pelo manto imaculado de pureza que desce do madeiro e o vai ocultando pelos cuidados carinhosos de uma Madalena desnudada, santa, amante e humana. A nudez de Maria Madalena clama por Dignidade e por Humanidade. De frente para ele, mas e sempre oculta como seu Filho, está a Santa Mãe, de joelhos, talvez orando e chorando lágrimas de sangue, talvez em revolta mansa ainda que animal, instintiva, carnal. 

   Aquele vulto poderoso que oculta este “fresco” tradicional da Crucificação (Cristo na Cruz, Santa Maria e São João Evangelista, por vezes acompanhados de Santa Maria Madalena) é um corpo supliciado cor-de-sangue (o vermelho “revolucionário”) para o qual se dirige uma mulher de verde-petróleo (o verde da “esperança”), exasperada, as mãos aflitas tapando os olhos incapazes de enfrentar o brutal momento de verdade. Ela sai por baixo do vazio central da composição, espécie de “buraco negro”, e por trás do cavalo coberto com a bandeira vermelha (do “vermelho” da revolução) que o liga instantaneamente ao corpo “vermelho” no madeiro. O cavalo é o mesmo que aparece na obra “Guernica” de Pablo Picasso, pintado 4 anos antes (V., p.f., o artigo anterior àqueles dedicado), isso é intencional e assinala os propósitos, a amizade e a camaradagem que sempre uniram os dois artistas. O cavalo, que é branco como as vestes puras de Cristo, está dominado por um dos carrascos, que segura a lança da esponja com vinagre e parece estar a avaliar o “saque”, o que lhe dá o tom perfeito de um renegado e um mercenário, podendo ver-se nele a perfeita denúncia anti-clericalista e anti-fascista que sempre norteou o pintor Andrea Guttuso. Até porque a seu lado, e dominando o caos, está o cavalo negro (o “negro” da morte e da ditadura) e o cavaleiro, que mostra laivos de “vermelho”no rosto e nas pernas com que domina a montada, revelando assim ser da mesma condição (humana) que o “revolucionário” crucificado, empunha o bastão do comando, do poder vigente na Itália de Mussolini.

   Ao fundo, o terceiro supliciado, talvez o “bom ladrão”, repousa já no insondável da morte e uma mulher abraça-o terna e discretamente como sempre sucede entre os humildes e os humilhados.

   Em primeiro plano, terríveis e eficientes, os cruéis Instrumentos da Paixão chamam-nos à “realidade crua e nua”.

   Marcada por um grande modernismo, expressionista e descritivo, carregada com um cromatismo que foge a sete-pés do “naturalismo”, com subsídios sólidos de um Cubismo adaptado às mais ousadas distorções anatomistas, esta obra é talvez o melhor exemplo do Realismo Socialista que despontou – na clandestinidade revolucionária – no final da década de 30, primeiros anos da década de 40, em Itália.

   Sobre o quadro, disse Guttuso que “…é o símbolo de todos aqueles que sofrem insultos, prisão, tortura por causa dos seus ideais…”; e também que “…este é um tempo de guerra. Desejo pintar o tormento de Cristo como uma cena contemporânea…como um símbolo de todos aqueles que, por causa das suas ideias, sofrem a indignação, a prisão e o tormento…”

N.R. – O Autor não segue as normas do novo Acordo Ortográfico.   

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