Prezado Leitor:
Como passei uns dias com familiares em férias, aproveitei — como costumo fazer — para ler algum livro, tomar as minhas notas, rascunhar elementos aproveitáveis para futuras crónicas jornalísticas…
Numa das variadas leituras que fiz, o meu espírito-irrequieto deparou com um célebre soneto de CAMÕES (1524-1580), “ALMA MINHA”, que, desde há muito, conheço e sei de cor…
Nesse soneto belíssimo chamou-me a atenção o uso do vocábulo “Se” duas vezes! Foi o bastante para me entreter com temas da nossa mestra — a “Gramática da Língua” portuguesa. Como sabes, prezado Leitor, Tu e Eu usamos diariamente, em linguagem falada ou escrita, aquele monossílabo “Se”, que parece nada ser capaz de significar mas que, no entanto, pode muito dizer ou traduzir, conforme o texto e contexto em que for utilizado…
Recorramos a exemplos:
a) O operário feriu-se numa das mãos (pronome pessoal reflexo);
b) não é fácil tratar-se um doente canceroso (partícula apassivante);
c) Gostas muito dele? — Oh! Se gosto…! (partícula de realce);
d) Por aí diz-se, fala-se muita coisa… (pronome indefinido do autor falante;
e) Se eu souber, tomarei providências… (conjunção condicional).
Ora bem, prezado Leitor: os citados “Se” camonianos de que pretendo falar foram usados pelo Poeta apenas como “Condicional”, expondo uma “condição” e dúvida: tendo-lhe morrido, nova e de repente, a donzela que ele adorava, CAMÕES, mergulhado em dor e saudade, compôs e dedicou-lhe o referido soneto. “Se lá no assento etéreo onde subiste, memória desta vida se consente” (se aí no céu, há recordações da terra, não esqueças o meu grande amor por ti…), e, “se vires que pode merecer-te alguma coisa a dor que me ficou…” (se o meu sofrimento te der alguma valia perante Deus, roga-Lhe que me leve já também para ao pé de ti!).
Lindo, lindo! — não achas, prezado Leitor? Aquele “se” traduzia, já há mais de quinhentos anos, as incertezas de Camões acerca do “Além”, exatamente como todos nós, ainda hoje…!
Foto: jornal Opção