Partiste, Emília!!! Algum dia teria que ser, mas adoraríamos ter-te entre nós, porque a estima por ti era imensa. Todos te admirávamos pela mulher corajosa que foste, pela amiga que demonstraste ser, pelas histórias que nos contavas, pelas gargalhadas sadias que tinhas para cada momento, sacudindo tristezas e animando conversas.
É verdade, partiste, sabendo nós que muito ainda sabias para contar. Era de muitos conhecido que a tua casa era o ancoradouro firme e seguro daqueles que conspiravam contra o salazarismo em luta pela liberdade. Estavas habituada a acolhê-los e alimentá-los, sabendo os perigos que corrias; porém, fazia-lo, limitando medos e escamoteando riscos. Conhecias as práticas para dar segurança a quem imprevistamente te visitava; e sabias bem utilizar as senhas, para não confundires os camaradas que arriscavam a vida com os pides que os perseguiam. Sim, sabíamos, mas décadas de ativismo a favor de causas não se resumem a esporádicas conversas de café.
De vez em quando desabafavas que tinhas pena do que se sofreu em prol da liberdade, e de uma sociedade de justiça social que não se conseguiu de todo… Mas mantinhas a tua alegria contagiante para animar quem te rodeava. De vez em quando, encontrávamo-nos no jardim. Sentada no banco, quando nos vias ao longe, já sorrias, expressando aquela amizade enraizada, fruto de vivências combativas, de presença ativa em todos os locais onde se clamava por justiça.
“Passai lá por casa, para falarmos, para lembramos peripécias do tempo passado”, costumavas dizer. Só que temos o hábito de julgar que somos imprescindíveis e que o tempo nunca é suficiente para fazermos tudo o que julgamos estar em primeiro lugar, esquecendo-nos quase sempre que, em lugar cimeiro, está a amizade. Vamos adiando e, de repente, vamos ficando mais sós, porque começa a ser tarde para fazer novas e vincadas amizades. Uma amizade sólida constrói-se com tempo, na comunhão de ideias, no respeito pela diferença e no entendimento das sadias formas de estar na vida. Sabes, Emília, os bons amigos escasseiam e são cada vez menos. É por isso que ficamos com pena de não ter conversado mais contigo. Agora já não farias aqueles pratos que se degustavam com prazer, e que tanta satisfação te dava, porém, quem te calava, quando começavas a desfiar histórias?
Olha, gostámos muito daquela narrativa sobre o Tone nos ENVC, quando foi indicado, por carta anónima, de ser um ativo e perigosos comunista no interior da empresa. Teve a sorte de ser informado pelo Ribeirinho, outro homem generoso, que, astuto, suspeitou da carta e a leu. Avisado, temeroso de perder o emprego, quanto surpreendido ficou, quando o todo poderoso Jacques Lacerda, já na posse da missiva, em conselho de administração, o nomeou como seu colaborador direto. Bom… a história é longa. Fiquemos por aqui. Será que um dia poderemos aprofundar o assunto? Olha, agora, dorme o sono dos justos. Pensaremos sempre em ti. Dos bons jamais nos esqueceremos. GFM